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sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Eduardo Lourenço é o Prémio Pessoa 2011



Público - 16.12.2011 -  Por Ana Dias Cordeiro

O filósofo e ensaísta Eduardo Lourenço foi hoje distinguido com o Prémio Pessoa que desde 1987 premeia figuras com um papel relevante no ano anterior nas áreas da cultura e da ciência.

O anúncio foi feito, como habitualmente, no Palácio de Seteais em Sintra por Francisco Pinto Balsemão, que preside ao júri também constituído por Fernando Faria de Oliveira (Vice-Presidente), António Barreto, Clara Ferreira Alves, Diogo Lucena, João Lobo Antunes, José Luís Porfírio, Maria de Sousa, Mário Soares, Miguel Veiga e Rui Magalhães Baião.

"Num momento crítico da História e da sociedade portuguesa, torna-se imperioso e urgente prestar reconhecimento ao exemplo de uma personalidade intelectual, cultural, ética e cívica que marcou o século XX português", escreveu o júri em comunicado sobre a escolha de Eduardo Lourenço, homenageando "a generosidade e a modéstia desta sabedoria, que tendo deixado uma marca universal nos Estudos Portugueses e nos Estudos Pessoanos, nunca desdenhou a heteredoxia nem as grandes questões do nosso tempo e da nossa identidade".


Continua AQUI

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Novo Acordo Ortográfico

"A presente resolução do Conselho de Ministros determina a aplicação do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa no sistema educativo no ano lectivo de 2011 -2012 e, a partir de 1 de Janeiro de 2012, ao Governo e a todos os serviços, organismos e entidades na dependência do Governo, bem como à publicação do Diário da República."
 

AQUI

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

quarta-feira, 9 de março de 2011

8 de Março - Dia Internacional da Mulher

Notável discurso da deputada Natália Correia, na sessão parlamentar de 22 de Março de 1990 e publicada no Diário da Assembleia da República a 23 de Março de 1990, número 55

Logo no século XVI, Rui Gonçalves, lente de Direito Civil, oriundo da ilha de São Miguel, o que me é, obviamente, motivo de orgulho, defende os «privilégios e prerrogativas que o género feminino tem por direito comum e ordenaçooens do reino, mais que o género masculino», num livro assim intitulado, em que reconhece levar a mulher decidida vantagem de ânimo e psique nas qualidades requeridas para a governação do reino.

Ainda no século XVI, dentro do ideário do humanismo cívico, Duarte Nunes de Leão, na sua Descrição do Reino de Portugal, enaltece os prodígios das mulheres que nessa época tinham grande eminência nas letras, e João de Barros, no seu Espelho de Casados, afirmando que as mulheres são tão hábeis e sabedoras quanto os homens, acrescenta: «e se me disserem que muitas o não são, digo eu que também há muitos néscios e desarrazoados».

Certamente que tão fervoroso feminismo tinha o seu fundamento numa plêiada de mulheres notáveis. Dispensando-me de evocar aquelas cuja fama logrou romper as sombras com que a crónica as envolveu — Joana Vaz, Públia, Hortênsia de Castro e outras —, recordo, das latinisias que precederam de 50 anos o círculo letrado da infama D. Maria, essa extraordinária Leonor de Noronha, discípula dilecta de Cataldo Parísio Sículo, animador na corte portuguesa de um movimento cultural de cariz renascentista, que nela diz ter encontrado uma coisa do céu, a sibila de cumas.

Pois terá sido, na opinião autorizada do camonista José Maria Rodrigues, na tradução, e acrescento por D. Leonor, da Crónica Geral, de Marcanlonio Cocei Sabellicus, e da Crónica Geral da Eneida, do mesmo autor, que Camões encontrou uma das fontes de Os Lusíadas.

Considere-se ainda que não só nas letras, mas também nas armas (o que não me entusiasma muito, mas é um facto!), se distinguiram as mulheres que, oriundas da linhagem de Brites de Almeida e de Deuladeu Martins, e prosseguida nas guerras da Restauração com Mariana Lencasire, e no século XIX, com a Maria da Fonte, protagonizaram, no século XVI, em Cafim, no Norte de África, c sobretudo nos cercos de Diu, um ardor na peleja que legendariamente se acendeu na bravura de Ana Fernandes, a celebrada «velha de Diu».

Mas, já entrando no século XVII, continuam a fazer-se ouvir as vozes masculinas que rendem louvores aos méritos intelectuais e artísticos e mesmo proféticos do sexo feminino. É D. Francisco de Portugal na sua Arte de Galantería, dizendo ser coisa assaz lúcida o estimar o que as mulheres dizem como profecias e oráculos.

É D. Francisco Manuel de Melo e outros escritores a nomearem «fénix dos engenhos lusitanos» essa genial poetisa Soror Violante do Céu, que, antes de professar, já aos 17 anos era assaz admirada para que fosse escolhida uma comédia da sua autoria para ser representada nas festas oferecidas a Filipe III, na sua visita a Portugal.

São os corifeus da literatura a consagrarem outra notável poetisa, Soror Maria do Céu, «assombro do sexo feminino, inveja do masculino e admiração de ambos», assim a glorificaram os do seu tempo, preito que lhe é rendido pelo próprio qualifïcador do Santo Ofício, Padre Manuel Boaventura de São Gião, que, no seu parecer sobre um livro da poetisa, não escasso em timbres profanos como a poesia de Soror Violante do Céu, diz que ela é prodígio da natureza que excede a apreensão humana.

Em cobrar encómios semelhantes não lhes fica atrás Madalena da Glória, que, com as outras duas, forma a cintilante triologia de poetisas do século xvii, pois, como as outras, teve panegirístas fanáticos, que a designaram por «fénix dos engenhos».

Soror Madalena da Glória era também pintora, o que me leva a acentuar que a pintura, bastante cultivada neste período por mulheres artistas, hoje ignoradas, teve o seu expoente feminino em Josefa de Óbidos, que continua a encantar-nos com a voluptuosidade da doçaria das suas naturezas-mortas e com o lirismo encantador dos seus Meninos Jesus.

E chegamos ao século xviii. O Iluminismo contém uma componente feminista de que é arauto Luís António Vemey, que, no seu Verdadeiro Método de Estudar, essa extraordinária figura da nossa história da pedagogia, prescreve o que se deve ensinar às mulheres, que considera tão dotadas intelectualmente quanto os homens, indo mesmo ao ponto de afirmar que se elas se dedicassem ao estudo como os homens, então veríamos quem reinava.

Também desta época, mas não compartilhando a confiança iluminística na razão, é uma obra, Reflexões sobre a Vaidade dos Homens, em que o autor, Matias Aires, se insurge contra a situação da mulher sujeita a uma condenável subalternização. Em bom entendimento estaria ele nestas ideias com a irmã, Teresa Margarida da Silva Orta, nascida no Brasil, autora da novela Aventuras de Diofenes, em que se inscreve a marca feminista, que teve a honra de ser a percursora do romance brasileiro.

É nesta época, em que proliferam poetizas de grande mérito, que, de entre elas, esplende Leonor de Almeida, a grande Aloma. Já muito jovem, reclusa no convento de Cheias em virtude do seu parentesco com os Távoras, Leonor de Almeida faz afluir ao convento os melhores poetas do tempo, que vão admirar esse prodígio feminino. E dela que erradia, em Portugal, uma nova cultura que faz voltar a atenção da juventude para uma literatura que, vinda da Alemanha, vai revolucionar as letras nacionais: o Romantismo.

Alexandre Herculano era um desses jovens, que, no elogio que tece à poetisa por ocasião da sua morte, se confessa discípulo dessa mulher, sua mestra em conhecimentos nos quais nenhum português a igualava. São palavras de Alexandre Herculano.

Pois é este Alexandre Herculano, cavaleiro romântico da Ordem da Sabedoria Feminina, que na sua História de Portugal acentua ter sido durante a regência de D. Teresa que a nacionalidade portuguesa começou a caractcrizar--se, tornando-se ela própria — ela, D. Teresa — vítima do excesso com que fez radicar-se e definir-se esse sentimento.

Nesta mesma doutrina se situa Fernando Pessoa quando exalta em D. Teresa o seio augusto que amamentou a Nação. E previne:

Dê lua prece outro desuno A quem fadou o instinto teu! O homem que foi o teu menino Envelheceu

Envelheceu, sim, pois fatalmente terá de enfermar o homem de cansaço do poder, segundo a lei natural de que tudo se esgota, atingindo o seu termo.

Exorto-vos, por isso, Srs. Deputados, como representantes da Nação que no seu longo passado tanto enalteceu a mulher, através das vozes dos seus mais ilustres varões, o que desmente a tradição machista portuguesa, a tomar o alerta do poeta como bom conselheiro. Expulsai do vosso ânimo e das vossa práticas uma agónica miso-ginia, que ofende a memória dos ascendentes que ilustraram o vosso sexo.

O feminismo histórico, que forte incidência teve na implantação e desenvolvimento da I República, é assaz conhecido para que lhe dê realce nesta minha resenha dos olvidados vultos masculinos que tanto enalteceram os engenhos femininos. Mas, na aurora desse feminismo, cumpre recordar D. António da Costa e o conde de Sabugosa, que se distinguiram como cronistas do relevo que a mulher teve na sociedade portuguesa. E recordarei que o conde de Sabugosa dedicou páginas de grande admiração a essa notável duquesa de Palmeia, escultora e fundadora das cozinhas económicas, conhecida no seu tempo como a duquesa socialista, trisavô do deputado Pedro Campilho e meu grande amigo, ascendência que muito o honra.

Assinale-se que estes dois autores eram representantes do «velho» Portugal, que aos méritos intelectuais da mulher deu o pedestal que o patrismo burguês tudo faria por derrubar.

Sr. Presidente, Srs. Deputados: Propus-me trazer à luz vozes ignoradas ou esquecidas do passado que, provando ser o tão falado machismo português uma gabarolice frívola sem consistência nem tradição cultural no nosso país, se juntam à prece com que o poeta da Mensagem termina o poema que dedica à mãe da nacionalidade:

Mas iodo o vivo é eterno infante Onde estás e não há o dia. No antigo seio, vigilante De novo o cria

Atente nisto, o sexo masculino c saiba renascer das cinzas de um poder que milenariamente lhe pesa. Porque já neste mundo de vertiginosas mudanças, sociólogos do futuro avançam vaticínios baseados na leitura de sinais que indicam que no ano 2000 o poder transitará para a liderança feminina. Salvo seja! Que esfalfadela!

Risos.

Por mim, podem os homens ficar nos governos a gerir coisas cada vez menos interessantes, mas de que eles gostam muito, como a economia e a política que a serve,...

Risos.

... contanto que tirem da sua natureza aquilo que também há de feminino neles, a fim de que não haja fricção com a política de desenvolvimento cultural, que, essa sim, deve ser o pelouro das mulheres que, pela sua sensibilidade e paixão pelas artes, estão naturalmente vocacionadas para a exercer, não esquecendo, claro, que a cultura é o «motor» da mudança exigida pela crise de valores que está a abalar os alicerces desta nossa civilização que o homem fundou.

Aplausos gerais."

E em resposta a alguns deputados, refere:

"A Sr.ª Natália Correia (PRD): — Querido amigo Pedro Campilho, agradeço-lhe as palavras que teve.

Minha querida amiga, falemos assim, Manuela de Aguiar, há coisas em que efectivamente não nos entendemos. Realmente, a minha querida amiga segue uma linha feminista que eu não sigo...

Risos.

... e que às vezes colide com determinadas atitudes que eu estranho em si, mas enfim...

Risos.

De qualquer maneira, devo dizer que não falo em divisão de trabalho e que fundamentei histórica e culturalmente o que disse.

No entanto, quero lembrar-lhe que foi sempre nos salões das mulheres que se desenvolveu a cultura europeia.

Não sei, mas talvez se interesse pela economia. Não repudiu a política. O que repudiu é a política tal como ela se exerce. Por isso, penso que tem de nascer uma nova cultura para que dela brote uma nova política. Enfio, sim, aí estamos de acordo.

Apesar de pensar que a mulher tem uma palavra muito importante a dizer no Poder, sou pelo androginato social, não estou interessada na inversão de valores. Não podemos derrubar os simpáticos homens, que são tão agradáveis...

Risos.

... para as mulheres realmente tomarem conta do Poder. Não!... Sou pela bissexualidade!... Bem, não propriamente no aspecto erótico...

Risos.

Mas também pode ser, que não me importo.

Risos.

Também pode ser, porque não sou puritana.

Risos.

E se unirmos o que há de feminino no homem... foi por isso que lancei uma exortação para que o homem assuma o que tem de feminino, porque isso é necessário. E quando falo de uma cultura nunca digo uma cultura feminina, mas digo a cultura do feminino, que é também a cultura do homem que, subjugado, enfim, por uma cultura nacionalista, teve de esmagar esses impulsos.

Porém, esses impulsos são muito necessários para a mudança da nossa sociedade. Agora, naturalmente, a mulher, por uma ociosidade a que foi forçada, foi acumulando energias que talvez a predisponham para ser mais activa no mundo da política cultural, que eu penso ser o seu domínio natural, porque é a cultura que vai transformar tudo. Sempre foi assim e assim há-de ser. Não estou a substimar o papel da mulher, bem pelo contrário! Quanto àquele senhor...

O Sr. Amândio Gomes (PSD): — Amândio Gomes!

A Oradora: — Desculpe, Sr. Deputado, mas faço-lhe notar que a «bomba» demográfica é um perigo que ameaça a nossa civilização.

Risos

Realmente a reprodução da espécie tem de continuar, nós não podemos desaparecer da face da Terra.
Todavia, a «mulher parideira» não é propriamente o modelo que me encanta.

Aplausos do PRD. do PS. do PCP e de Os Verdes e risos do PSD e do CDS."


(Com os respectivos agradecimentos ao
José Daniel Soares Ferreira)

domingo, 6 de fevereiro de 2011

CRÓNICA

Derivado do lat. Chronica e do gr. Khrónos, consagra o conceito de tempo, informando com ele o discurso dos textos que designa.

Inicialmente, a crónica, mais geral ou mais particular, registava acontecimentos históricos por ordem cronológica. Fonte mais directa e imediata do conhecimento histórico, comportava também factos menos relevantes, informação secundária que a História moderna tenderá a elidir. Na alta Idade Média, a crónica começa a ser conformada por uma perspectiva individual que lhe confere uma dimensão interpretativa e, eventualmente, estética, como acontece com as obras de Fernão Lopes. (séc. XIV).

No séc. XIX, o desenvolvimento da imprensa periódica, e, em especial, da de opinião, vai fazer emergir a crónica no sentido moderno. No início, ela era apenas uma pequena secção de abertura que dava conta das notícias e dos rumores do dia, mas tenderá a alargar-se e a especializar-se pelo interior do periódico (crónica artística, literária, musical, etc.). Depois, ela desloca-se para o “folhetim”, secção do rodapé da primeira página do periódico, lugar de que se libertará mas onde conquistará a colaboração de homens de letras e, com isso, um espaço entre Jornalismo e Literatura. A sua identidade apoiar-se-á cada vez mais na autoria: a realidade social, política, cultural, etc. tornar-se-á progressivamente o quadro onde o cronista procura e selecciona qualquer facto quase como pretexto para discursar, opinar e, até mesmo, efabular. Deste modo, a crónica esteticiza-se. A crónica contemporânea, discurso de autor, oscila entre ser predominantemente comentativa, reflexiva, e efabulatória (p. ex., no espaço brasileiro, ela assume a feição do conto breve). Assim, apesar da actualidade e transitoriedade da sua temática, tem uma autonomia que favorece a prática da sua recolha e publicação em volume.

Bibliografia

BELLANGER, C., GODECHOT, J., GUIRAL, P., TERROU, F. e outros . Histoire Générale de la Presse Française (5 volumes), Paris, Presses Universitaires de France, 1969-1976; BURGELIN, Olivier . La Communication de Masse (volume VI da Enciclopédia “Le Point de la Question”), Paris, S.G.P.P., 1970; RITA, Annabela . Da “Chronica” do Distrito de Évora às Farpas : a conformação da crónica queirosiana (dissertação de doutoramento policopiada), Lisboa, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 1994; “A crónica”, pp. 27/86; TENGARRINHA, José . História da Imprensa Periódica (2ª edição revista e aumentada), Lisboa, Caminho, 1989; AA.VV. . Ensaios. Crônica, Teatro e Crítica (actas da II Bienal Nestlé de Literatura Brasileira), S. Paulo, Norte Editora, 1986; AA.VV. . Jornalismo e Literatura (actas do II Encontro Afro-Luso-Brasileiro), Lisboa, Veja, 1988.

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CULTURA


Palavra latina com a mesma raiz de cultus, de que derivam cultivo e culto, do verbo colo, is, ere, ui, ultum (cultivar), aplicado a domínios diversos, em especial aos campos, às letras e à amizade. Cícero fala do cultivo da humanitas, isto é: daquilo que torna humana a pessoa, a faz sentir-se vinculada a outras pessoas, designadamente através de condições de educação e segundo ideais formativos a que os Gregos chamavam globalmente paideia. A cultura animi ou cultura do espírito, que os latinos pressupunham como base da humanitas, pode definir-se como acção das pessoas sobre si próprias, enquanto indivíduos e sociedade, no sentido da realização plena das suas capacidades e potencialidades humanas. Mas a cultura, num plano mais vasto, associa a tal sentido também a acção susceptível de preservar ou melhorar o ambiente e o património, assim com os modos, práticas e tradições a que se atribui valor por testemunharem e contribuirem para a dignificação da vida. Neste plano mais geral, contudo, o termo ‘cultura’ expande-se sobretudo a partir de meados do século XVIII; e o termo ‘civilização’, para muitos identificável com o termo ‘cultura’, tem divulgação acentuada aproximadamente desde a mesma época, embora termos conexos como civilità já antes ocorram ocasionalmente (cf. Dante, Il convivio). Civilização (acção de tornar civil), todavia, designa, antes de mais, esforços organizados ou programados para melhorar o bem‑estar e a qualidade de vida, especialmente na cidade e no domínio do ter, da riqueza, do conforto, da eficácia dos equipamentos colectivos, das condições materiais de convívio.

A palavra ‘cultura’ tem o seu âmbito de aplicação mais específica no domínio do ser, das realizações não meramente materiais, da criatividade do espírito, implicando muitas vezes o não absolutamente programável ou previsível. Civilização é algo que surge intimamente ligado, portanto, às condições de cultura (inclusive a escola e a escolaridade), enquanto cultura subentende mais a realização de aptidões, talentos e a manifestação daquilo que habitualmente se designa por génio. Entre as metas da cultura contam-se o gosto pelas artes e ciências, o refinamento de maneiras e do saber, mas sobretudo a sabedoria, com inerente capacidade de digerir ou elaborar símbolos, ideias e pensamentos. Os sentidos etnológico e etnográfico dos termos ‘cultura’ e ‘civilização’, quer identificados quer demarcados segundo a distinção atrás sugerida, enraizam-se igualmente a partir da época setecentista, a par do crescente interesse pelo modo de vida ou pelos costumes dos povos. A definição de vários autores, entre os quais T. S. Eliot (cf. Notes Towards the Definition of Culture), de cultura precisamente como ‘modo de vida de um povo’, articula-se com a identificação dos termos ‘civilização’ e ‘cultura’, envolvendo uma abrangência etnológica que ocasionalmente parece coexistir com positiva e indiscriminada aceitação de uma grande variedade de componentes características das respectivas tradições (o que, aliás, nem todo o texto de Eliot porventura corrobora). O frequente uso no plural dos termos ‘cultura’ e ‘civilização’ tem acompanhado o desenvolvimento dos estudos etnológicos e etnográficos até aos nossos dias, numa crescente curiosidade e tolerância moderna relativa à variedade distintiva e individualizante do modo de vida e ser de cada povo.

Bibliografia

A. L. Kroeber e Clyde Kluckohn: Culture: A Critical Review of Concepts and Definitions (1963); C. P. Snow: The Two Cultures and a Second Look (1959, várias reimp.); Manuel Antunes: História da Cultura Clássica, vol. fotocopiado de notas das aulas teóricas e práticas, Faculdade de Letras de Lisboa, 1967/68, pp. 33-7; Raymond Williams: Culture (1981, várias reimp.); T. S. Eliot: Notes Towards the Definition of Culture (1948, várias reimp.); Victor Hell: L’idée de culture (1981).

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terça-feira, 4 de maio de 2010

Para identificação dos Domínios de Referência (DRs)


CULTURA LÍNGUA E COMUNICAÇÃO

CLC – 5 - Cultura, Comunicação e Média

DR1: Contexto Privado
Tema: Comunicações Rádio – O telemóvel

DR2 – Contexto Profissional
Tema: Micro e Macro Electrónica – O Computador

DR3: Saberes, Poderes e Instituições
Tema: Media e Informação – Os Mass Media

DR4: Contexto Macro-Estrutural
Tema: Redes e Tecnologias


CLC_6 – Culturas de Urbanismo e Mobilidade

DR1 – Contexto Privado –
Tema: Construção e Arquitectura

DR2 – Contexto Profissional - Cultura
Tema: Ruralidade e Urbanidade

DR3 – Saberes, poderes e instituições
Tema: Administração, Segurança e Território (Redes)

DR4 - Contexto Macro-Estrutural - Cultura
Tema: Mobilidades Locais e Globais (As Migrações)

CLC_7 – Fundamentos de Cultura, Língua e Comunicação

DR1 e DR 2 – Contexto Privado e Profissional
Tema: O Elemento (Indivíduo e Projecto) e Processo e Métodos Científicos

DR3 – Contexto Institucional
Tema: Ciência e Controvérsias Públicas

DR4 – Contexto Macro-Estrutural
Tema: Leis e Modelos Científicos

sábado, 24 de abril de 2010

o amador de livros perante as bibliotecas a morrer

5.4.10 - 19:20 (José Pacheco Pereira)

(Foto de António Leal.)
Se for pessimista posso dizer que tenho em casa várias bibliotecas mortas. Se quiser ser optimista, várias bibliotecas que salvei de morrer, algumas in extremis. Explico-me: no ofício de bibliófilo, de amador de livros, encontro-me muitas vezes com restos de bibliotecas, ou nalguns casos com bibliotecas inteiras, que recolho a casa, com as dificuldades que os livros transportam. Livros são matéria difícil e cara de manter: ocupam muito espaço, são muito pesados, ganham pó e humidade, bolores e uma fauna sinistra de insectos que já leram muito mais do que os humanos. Leram aliás de uma forma mais holística, comendo livros, jornais e revistas. Eu que sou gandhiano e vagamente budista em relação a todas as formas de vida - nunca se sabe que inimigos meus, ignorantes presumidos em vida, reincarnaram em caruncho ou "peixinhos de prata" por castigo divino - transformo-me num Átila diante desses bichos.

Não me refiro aqui a livros avulsos, porque livros avulsos mesmo que sejam muitos não fazem uma biblioteca. Refiro-me a bibliotecas verdadeiras, colecções privadas de livros que não são meros ajuntamentos, ou fachada para dar entrevistas e receber alguém num escritório. Uma regra, com fundamento na minha experiência, diz-me que a partir de mil livros a biblioteca não contém só livros mas a identidade do seu "autor". São estas bibliotecas que me interessam, muitas vezes mais do que os livros em si, mesmo quando não contém raridades bibliográficas. Bibliotecas que são parte de uma vida, livros que foram escolhidos por uma razão qualquer, que foram lidos pelo menos em parte, e que serviam mais de espelho do seu dono do que de fachada de estantes. E são essas bibliotecas que, na morte, são tão trágicas como é a morte de alguém.

Já as vi nas estantes, mas o que é mais comum é que quando ainda aí permanecem é porque já foram ou vão ser vendidas a algum alfarrabista ou esperam um leiloeiro. Na verdade, é esse o destino das bibliotecas com mais preciosidades, e que são vistas pelos herdeiros como um valor essencial da herança. Também aqui se compreende visto que nem toda a gente gosta de livros, nem tem as condições materiais para os manter. E não seriam capazes de lhes dar continuidade, como colecções valiosas que exigem muito. Nesse caso, e se a venda for bem feita, o catálogo é o último momento da integridade da biblioteca e, num certo sentido, fica aí a sombra da identidade do seu possuidor. E os livros alimentam outras bibliotecas e outras colecções. É aquilo que se pode chamar de morte digna, se é que há morte que seja digna.

Mas, mesmo bibliotecas preciosas morrem mal por ignorância e cupidez, de gente que quer despachar tudo rapidamente, e que quando se chega à biblioteca já hordas de herdeiros passaram tudo a pente fino para levar das encadernações mais vistosas aos lustres e naperons. Lustres e naperons, porque bibliotecas são coisa cada vez mais de gente antiga, porque nos apartamentos de Telheiras não há espaço para livros que se vejam, nem a "vida moderna" permite ocupar tanta parede. Só o "plasma" dá para uma estante inteira, ou melhor, não dá porque tira. Para além disso há normalmente um membro do casal, ou algum membro das formas actuais de uniões monogâmicas sucessivas - esta é uma história que já ouvi dezenas de vezes -, que conduz uma guerra surda ou sonora contra o "espaço" que ocupam os livros. E uma parte vai para a arrecadação, a mais antiga normalmente, a que foi comprada há mais tempo, e então revistas e jornais são periodicamente purgados da "vida moderna".

Não estou a condenar ninguém, a "vida moderna" não dá mesmo para ter livros que se vejam em casa. De passagem e com declaração de interesse: não deitem nada fora, eu vou à mais complicada arrecadação de terraço ou de garagem, buscar papéis para lhes dar outra vida. Não há garantias de eternidade, mas se depender do humano esforço, eu faço com gosto. Tomem este artigo como uma página de publicidade, verdade seja que não lucrativa. É para o "colectivo", como diz o PCP.

Neste cemitério dos livros, eu gosto de bibliotecas "comuns" feitas por gente comum que gosta de livros. Bibliotecas de autodidacta na província, feitas quase sempre por gente muito especial, verdadeiros excêntricos, muitas vezes solitários, com interesses muito especiais, obsessivos, que marcam as bibliotecas com a sua vida. Tenho uma de um homem com poucos estudos académicos, soldado da GNR, depois da Polícia de Viação e Trânsito, poliglota, missionário evangélico, que vivia sozinho, e que o único membro da família sobrante vendeu a peso a poucos dias da morte, como se fosse uma vingança qualquer para a excentricidade que se pode perceber do "autor" da biblioteca. Tenho a de Francisco Ferreira, o "Chico da CUF", o que sobrou do seu longo e acidentado périplo pelo exílio na URSS, com os seus clássicos russos em russo, Tolstoi, Tchekov, Lermontov, Turgueniev, mas também os dicionários que usava e os seus cadernos de autodidacta de exercícios de matemática. Tenho outra, mais pequena, mais de revistas, papéis, programas, partituras, desenhos, do que de livros, feita por um actor secundário de revistas do Parque Mayer, já há muito morto, e que foi mantida como memória pela viúva. Outra foi-me oferecida no final de um programa de rádio, um daqueles estandardizados em que se fala das "músicas da vida" na Antena 2, por um filho de um velho professor de liceu de Germânicas que me disse para a ir buscar porque as músicas que passei eram também do agrado do seu pai que tinha morrido. E lá trouxe uma pequena biblioteca cheia de Shakespeare, dos clássicos ingleses, de Goethe, de estudos de literatura alemã e inglesa feita nos anos quarenta e cinquenta. E lá veio também uma daquelas coisas que são marcas imediatas da identidade política, muitas vezes discreta, do seu autor: uma colecção do Diabo. Essas marcas são sempre as mesmas, o Diabo ou o Sol Nascente, as primeiras edições de Redol, de Ferreira de Castro, os livros da Biblioteca Cosmos.

Não tendo condições para manter os livros separados, eles dissolvem-se na biblioteca mais geral, mas digitalizo a capa dos livros numa pasta electrónica separada. Como não tenho tempo para fazer fichas, é assim que os organizo. Mas uma parte fica sempre separada: os papéis que vêm juntos, fora e dentro dos livros, as dedicatórias, os ex-líbris, e tudo que possa servir para lhes manter a identidade. E assim não morrem de todo.

(Versão do Público de 3 de Abril de 2010.)

(url)

domingo, 21 de março de 2010

Natália Correia - Defesa do Poeta

Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei

Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em criança que salvo
do incêndio da vossa lição

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além

Senhores três quatro cinco e Sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Agostinho da Silva - Salazar, Capitalismo e CEE



"Conversas Vadias" CD2
Entrevista com Baptista Bastos
Parte Final

"No final de contas não tenho feito mais do que apresentar e repetir o que foi a obra e o pensamento de muitos portugueses do século XIII, de Camões, do Padre Vieira, de Fernando Pessoa, Não sou nenhuma espécie de génio ou de visionário."

"Ideias que não podiam ser aplicadas no tempo em que ele viveram, mas podem ser agora. Não só para que Portugal se reinstale, para que volte a si próprio depois de ter sofrido a tal invasão europeia. Mas até para ajudar a Europa quando se fala de adesão de Portugal à CEE eu vejo aquilo como um desembarque na costa da Europa, para a ajudar, para ver se tem algum jeito depois de toda a confusão em que anda."

"Para que a Europa conseguisse tanta da sua tecnologia teve que sacrificar muito da sua Humanidade."

"A Economia Capitalista é a única que pode inaugurar a paz que é a de não haver carência para o mundo. É a única que pode desenvolver o mundo até às condições - pelo que sabemos da Arqueologia - em que nao faltava nada para os Homens, em que estes percorriam o Mundo à vontade e tinham sempre que comer."

sábado, 10 de outubro de 2009

Lisboa mata-nos

Lisboa mata-nos
Por Alexandra Lucas Coelho

Num filme estrangeiro de 1983, Lisboa é "a cidade branca", ainda estamos para saber como. Foi o que o cineasta Alain Tanner viu, mas não impunemente.

"Que cegueira", reagiu José Cardoso Pires, "em poucos lugares como este de tantas cores cada cor é feita". A saber: "Azul de azuis? Branco áspero de pérola e cinza? Ocres de pardacentos e vermelhos lisos?" (Lisboa, Livro de Bordo, 1998).

Já antes (em Era Bom que Trocássemos umas Ideias sobre o Assunto, 1995), Mário de Carvalho pusera o suíço Tanner a andar: "... disponho-me a jurar e a declarar notarialmente que branca não é. Basta subir ao miradouro da Senhora do Monte, ali a S. Gens, ou ao terraço do Hotel Sheraton, ou àquele edifício azul que fecha a Alameda D. Afonso Henriques nos altos da Barão de Sabrosa, ou mesmo ao humilde convés dum cacilheiro, para poder verificar que a cidade, descontando o grená rugoso dos telhados, varia entre os rosa-suaves, os verdes-esbatidos, os amarelos-doces, em milhentas tonalidades que não fazem mal à vista".

Nas crónicas de Lisboa Contada pelos Dedos, 2001, Baptista Bastos reforça: "A cor lilás de Nikias, a cambiante rosa de Botelho, o azul-turquesa de Pavia, a paleta caprichosa de Francisco Smith, a veemência explosiva de Almada, a convulsão pictórica de Vieira da Silva e, até, os amarelos serenos de Arpad".

E depois, honra feita às cores, Lisboa em 2000 é, ainda, segundo B.B., "a tença que Luís Vaz esmola no Paço, os fados populares e cívicos de Linhares Barbosa cantados por Amália, os velhos do O"Neill, o bagaço de Pessoa, os seios e as ancas das carvoeiras de Cesário, a escola do paraíso de José Rodrigues Miguéis, o punho vertical e terno de Ary e as vagabundagens de José Gomes Ferreira".

Cidade da eterna partida - "aventura, alumbramento, bravura, sonho e flores" -, à chegada "traz consigo o drama e a tragédia: as caravelas destroçadas, os torna-viagens da miséria, os soldados estropiados, os corpos dos mortos, o fim do império. Um lenço: o sudário". O Tejo "personifica o que traz e o que leva, mas também o que separa".

A chegar, justamente, foi como José Saramago inventou Pessoa/Reis (O Ano da Morte de Ricardo Reis, 1984), vindo do Brasil para a boca do Inverno: "O Rossio está cheio. Caiu uma bátega rápida, abriram-se guarda-chuvas, carapaças luzidias de insectos".

De perto e ao longe

Mas ia Saramago muito longe do Nobel e já Lisboa tinha umbest seller- uma Lisboa de pancadaria, tusa e cinema. FoiO Que Diz Molero pela mão de Dinis Machado, cem mil leitores para um Bairro Alto que há muito não há.

Bem o conheceu Cardoso Pires em muitas daquelas navegações que são os bares, dizia ele.

De resto, abrindo ozoom, "em frente é o rio que corre para os meridianos do paraíso", e sobre ele "uma cidade em geometria esquiva, colinas, requebros, ondulações", como se vê ao "meter pelo abandonado Cais do Ginjal" para "assistir, do outro lado do rio, ao descair da luz" (Lisboa, Livro de Bordo).

Tudo tão verdade ao longe como quando se cheira ao perto: "Cheiros, pois então: o do peixe de sal e barrica nas lojas da Rua do Arsenal, não vamos mais longe; o da maresia a certas horas das docas do Tejo; o do Verão nocturno dos ajardinados da Lapa; o dos armazéns de aprestos marítimos entre Santos e o Cais do Sodré; o do peixe a grelhar em fogareiro à porta dos tascos de recanto ou de travessa, desde o Bairro Alto a Carnide; o cheiro fumegante das castanhas a assar nos fogareiros dos vendedores ambulantes".

E nada disto deixa de ser verdade por também ser verdade isto: "A merda do mundo desagua aqui", escreve Maria Velho da Costa de uma Lisboa já com CCB, Lux e Gare do Oriente, cidade de grafitti e de tráfico, mestiça, melancólica, "a afogar-se no próprio vómito" (Irene ou o Contrato Social, 2000).

Em certos dias (por exemplo,O Rapaz de Botticelli, 2002), Mafalda Ivo Cruz também vê esta Lisboa, mas mais obscura e cheia de invisíveis - os fantasmas da ópera no tempo em que Almada Negreiros andava de eléctrico; os imigrantes de agora entre o Chiado e o Colombo.

Hoje, se for a Benfica, é o Colombo que António Lobo Antunes vai ver: "Hoje, se vou a Benfica não encontro Benfica. Os pavões calaram-se, nenhuma cegonha na palmeira dos Correios

(já não existe a palmeira dos Correios, a quinta dos Lobo Antunes foi vendida)

o senhor Silvino, o senhor Florindo e o senhor Jardim morreram, ergueram prédios no lugar das casas, mas eu suspeito que por baixo destes edifícios de cinco e seis e sete e oito e nove andares, num ponto qualquer sob marquises e sucursais de banco, o senhor Paulo ainda conserta, com guitas e caniços, as asas dos pardais, a dona Maria Salgado ainda trota de vivenda em vivenda com a Sagrada Família na sua redoma embaciada, o Lafaiete e o Jaurés jogam ao virinhas na Calçada do Tojal cercados de vasos de manjerico e madrinhas de chinelos. Não há pavões nem cegonhas e contudo a acácia dos meus pais, teimosa, resiste. Talvez que só a acácia resista, que só ela sobeje desse tempo como o mastro, furando as ondas, de um navio submerso".

E, além de Benfica, Lobo Antunes desdobra-se em Arletes e Anísios para contar o nosso lado Penha de França-Campo de Ourique, a Almirante Reis das pensões aos Anjos, ou a Grande Lisboa de quem vive na Rebelva, no Seixal, em Alcochete (Livro de Crónicas, Dom Quixote, 1998).

Por baixo de Lisboa

A história é longuíssima, cinzas e ossos debaixo dos nossos pés.

"As pessoas subiam e desciam sobre as pedras e o barro, e amparavam-se ao que podiam, em desequilíbrio. Talvez que, sob aquilo que pisavam, ainda existissem corpos calcinados." Hélia Correia a descrever o terramoto de 1755 emLillias Fraser (2001).

Com um pé na água e outro na terra que tremeu, a cidade teme mas não se mexe.

"Que mundo existe debaixo de Lisboa!", exclama Rui Cardoso Martins emDeixem Passar o Homem Invisível (Dom Quixote, 2009), um livro que atravessa as entranhas da cidade, de São Sebastião ao Tejo, depois de uma pequena catástrofe avivar a Grande Catástrofe.

"A zona que vai desde o Parque, ali acima, até debaixo dos armazéns espanhóis, e provavelmente parte desta encosta, serviu de vala comum no Terramoto de 1755." Ou: "Nas cheias de 1967, por causa da balbúrdia das casas em leito de cheia, morreram umas 700 pessoas."

Podem recuar-se até mil anos, que os mortos estão quase à tona: "Lá perto da câmara municipal até soldados dos tempos dos mouros, com cota de malha, eles encontraram ao instalarem as novas linhas da TV Cabo".

Pois assim se fez um império. "- Cais das Colunas, Praça do Comércio, o coração do império português inundado (...). Um império da trampa, às avessas, por cima e debaixo do chão, mas império."

E no princípio e no fim está Lisboa.

Espelho nosso

Sessenta poemas lhe dedicou Armando Silva Carvalho num só livro (Lisboas, 2000), a começar por este:

"Umas vezes oblíqua aos olhos de quem ama / a liquidez das cúpulas sonoras / onde ondulam as casas / na sua pulsação / nervosa e feminina. // Outras vezes erecta e pombalina / talhada para letras / de câmbio / velha receptora / e hoje só senhora / dum tempo fixo e mudo / indiferente à pedra. // Mas mais das vezes crespa / nas ondas ruidosas / erguidas da terra ébria / vasto espelho de bar para novas aventuras".

Sophia de Mello Breyner Andresen - que veio do Norte e se fez lisboeta numa daquelas raras casas com rio e com jardim, no bairro da Graça - viu "Lisboa oscilando como uma grande barca" em 1977. Mas no ano seguinte também a viu assim: "Inversa navegação / Tédio já sem Tejo / Cinzento hostil dos quartos / Ruas desoladas / Verso a verso / Lisboa anti-pátria da vida".

Espelho de tudo em nós, flutuante. "Há-de flutuar uma cidade", escreveu Al Berto, e como Lisboa está presa ao mar.

Nos anos 2000, Manuel de Freitas tem sido o poeta desta vocação para a derrota. "Cidade real, / lixo das quimeras todas", escreveu em A Flor dos Terramotos(2005). E emBlues for Mary Jane(2004): "Quando entardece, em Lisboa, / já sem eléctricos, já sem / Rui Cinatti, já sem tanta coisa. (...) Este navio vai partir agora. / Não navega, não cavalga, não tem espelhos. / Página a página nos matamos / - portugueses, suaves, tão concretos." Ou, no fim deGame Over (2002), isto: "um mar que foi apenas a vontade / de o ser, mas não muita".

E ainda assim, sempre que recuamos um passo para ver Lisboa, ficamos cegos. Nenhuma outra cidade será nunca tão bela como se a víssemos pela primeira vez.

Escreveu Fernando Assis Pacheco, "A uns amigos partindo-se para a América", no começo dos anos 80: "Se fosse Deus parava o sol sobre Lisboa".

Lisboa mata-nos
Por Alexandra Lucas Coelho

sexta-feira, 11 de setembro de 2009



O "Manifesto Anti-Dantas"

O "Manifesto Anti-Dantas" na íntegra, de Almada Negreiros, poeta d'Orpheu Futurista E Tudo, de 1915.
Depois digam que diferenças encontram no Portugal século XXI...

Basta PUM Basta!!!

Uma geração que consente deixar-se representar por um Dantas é uma geração que nunca o foi. É um coio d'indigentes, d'indignos e de cegos! É uma resma de charlatães e de vendidos, e só pode parir abaixo de zero!

Abaixo a geração!

Morra o Dantas, morra! PIM!

Uma geração com um Dantas a cavalo é um burro impotente!

Uma geração com um Dantas ao leme é uma canoa em seco!

O Dantas é um cigano!

O Dantas é meio cigano!

O Dantas saberá gramática, saberá sintaxe, saberá medicina, saberá fazer ceias para cardeais, saberá tudo menos escrever que é a única coisa que ele faz!

O Dantas pesca tanto de poesia que até faz sonetos com ligas de duquesas!

O Dantas é um habilidoso!

O Dantas veste-se mal!

O Dantas usa ceroulas de malha!

O Dantas especula e inocula os concubinos!

O Dantas é Dantas!

O Dantas é Júlio!

Morra o Dantas, morra! PIM!

O Dantas fez uma soror Mariana que tanto o podia ser como a soror Inês ou a Inês de Castro, ou a Leonor Teles, ou o Mestre d'Avis, ou a Dona Constança, ou a Nau Catrineta, ou a Maria Rapaz!

E o Dantas teve claque! E o Dantas teve palmas! E o Dantas agradeceu!

O Dantas é um ciganão!

Não é preciso ir pró Rossio para se ser pantomineiro, basta ser-se pantomineiro!

Não é preciso disfarçar-se para se ser salteador, basta escrever como o Dantas! Basta não ter escrúpulos nem morais, nem artísticos, nem humanos! Basta andar com as modas, com as políticas e com as opiniões! Basta usar o tal sorrisinho, basta ser muito delicado, e usar coco e olhos meigos! Basta ser Judas! Basta ser Dantas!

Morra o Dantas, morra! PIM!

O Dantas nasceu para provar que nem todos os que escrevem sabem escrever!

O Dantas é um autómato que deita para fora o que a gente já sabe o que vai sair... Mas é preciso deitar dinheiro!

O Dantas é um soneto dele próprio!

O Dantas em génio nem chega a pólvora seca e em talento é pim-pam-pum.

O Dantas nu é horroroso!

O Dantas cheira mal da boca!

Morra o Dantas, morra! PIM!

O Dantas é o escárnio da consciência!

Se o Dantas é português eu quero ser espanhol!

O Dantas é a vergonha da intelectualidade portuguesa!

O Dantas é a meta da decadência mental!

E ainda há quem não core quando diz admirar o Dantas!

E ainda há quem lhe estenda a mão!

E quem lhe lave a roupa!

E quem tenha dó do Dantas!

E ainda há quem duvide que o Dantas não vale nada, e que não sabe nada, e que nem é inteligente, nem decente, nem zero!

Vocês não sabem quem é a soror Mariana do Dantas? Eu vou-lhes contar:

A princípio, por cartazes, entrevistas e outras preparações com as quais nada temos que ver, pensei tratar-se de soror Mariana Alcoforado a pseudo autora daquelas cartas francesas que dois ilustres senhores desta terra não descansaram enquanto não estragaram para português, quando subiu o pano também não fui capaz de distinguir porque era noite muito escura e só depois de meio acto é que descobri que era de madrugada porque o bispo de Beja disse que tinha estado à espera do nascer do Sol!

A Mariana vem descendo uma escada estreitíssima mas não vem só, traz também o Chamilly que eu não cheguei a ver, ouvindo apenas uma voz muito conhecida aqui na Brasileira do Chiado. Pouco depois o bispo de Beja é que me disse que ele trazia calções vermelhos.

A Mariana e o Chamilly estão sozinhos em cena, e às escuras, dando a entender perfeitamente que fizeram indecências no quarto. Depois o Chamilly, completamente satisfeito, despede-se e salta pela janela com grande mágoa da freira lacrimosa. E ainda hoje os turistas têm ocasião de observar as grades arrombadas da janela do quinto andar do Convento da Conceição de Beja na Rua do Touro, por onde se diz que fugiu o célebre capitão de cavalos em Paris e dentista em Lisboa.

A Mariana que é histérica começa a chorar desatinadamente nos braços da sua confidente e excelente pau de cabeleira soror Inês.

Vêm descendo pela dita estreitíssima escada, várias Marianas, todas iguais e de candeias acesas, menos uma que usa óculos e bengala e ainda toda curvada prá frente o que quer dizer que é abadessa.
E seria até uma excelente personificação das bruxas de Goya se quando falasse não tivesse aquela voz tão fresca e maviosa da Tia Felicidade da vizinha do lado. E reparando nos dois vultos interroga espaçadamente com cadência, austeridade e imensa falta de corda...

Quem está aí?... E de candeias apagadas?

- Foi o vento, dizem as pobres inocentes varadas de terror... E a abadessa que só é velha nos óculos, na bengala e em andar curvada prá frente manda tocar a sineta que é um dó d'alma o ouvi-la assim tão debilitada. Vão todas pró coro, mas eis que, de repente, batem no portão sem se anunciar nem limpar-se da poeira, sobe a escada e entra pelo salão um bispo de Beja que quando era novo fez brejeirices com a menina do chocolate.

Agora completamente emendado revela à abadessa que sabe por cartas que há homens que vão às mulheres do convento e que ainda há pouco vira um de cavalos a saltar pela janela. A abadessa diz que efectivamente já há tempos que vinha dando pela falta de galinhas e tão inocentinha, coitada, que naqueles oitenta anos ainda não teve tempo para descobrir a razão da humanidade estar dividida em homens e mulheres.

Depois de sérios embaraços do bispo é que ela deu com o atrevimento e mandou chamar as duas freiras de há pouco com as candeias apagadas. Nesta altura esta peça policial toma uma pedaço de interesse porque o bispo ora parece um polícia de investigação disfarçado em bispo, ora um bispo com a falta de delicadeza de um polícia de investigação, e tão perspicaz que descobre em menos de meio minuto o que o público já está farto de saber - que a Mariana dormiu com o Noel. O pior é que a Mariana foi à serra com as indiscrições do bispo e desata a berrar, a berrar como quem se estava marimbando pra tudo aquilo. Esteve mesmo muito perto de se estrear com um par de murros na coroa do bispo no que se mostrou de um atrevimento, de uma insolência e de uma decisão refilona que excedeu todas as expectativas.

Ouve-se uma corneta tocar uma marcha de clarins e Mariana sentindo nas patas dos cavalos toda a alma do seu preferido foi qual pardalito engaiolado a correr até às grades da janela gritar desalmadamente pelo seu Noel. Grita, assobia e rodopia e pia e rasga-se e magoa-se e cai de costas com um acidente, do que já previamente tinha avisado o público e o pano cai e o espectador também cai da paciência abaixo e desata numa destas pateadas tão enormes e tão monumentais que todos os jornais de Lisboa no dia seguinte foram unânimes naquele êxito teatral do Dantas.

A única consolação que os espectadores decentes tiveram foi a certeza de que aquilo não era a soror Mariana Alcoforado mas sim uma Merdariana Aldantascufurado que tinha cheliques e exageros sexuais.

Continue o senhor Dantas a escrever assim que há-de ganhar muito com o Alcufurado e há-de ver que ainda apanha uma estátua de prata por um ourives do Porto, e uma exposição das maquetes pró seu monumento erecto por subscrição nacional do «Século» a favor dos feridos da guerra, e a Praça de Camões mudada em Praça Dr. Júlio Dantas, e com festas da cidade pelos aniversários, e sabonetes em conta «Júlio Dantas» e pasta Dantas prós dentes, e graxa Dantas prás botas e Niveína Dantas, e comprimidos Dantas, e autoclismos Dantas e Dantas, Dantas, Dantas, Dantas... E limonadas Dantas- Magnésia.

E fique sabendo o Dantas que se um dia houver justiça em Portugal todo o mundo saberá que o autor de Os Lusíadas é o Dantas que num rasgo memorável de modéstia só consentiu a glória do seu pseudónimo Camões.

E fique sabendo o Dantas que se todos fossem como eu, haveria tais munições de manguitos que levariam dois séculos a gastar.

Mas julgais que nisto se resume literatura portuguesa? Não Mil vezes não!

Temos, além disto o Chianca que já fez rimas prá Aljubarrota que deixou de ser a derrota dos Castelhanos pra ser a derrota do Chianca.

E as pinoquices de Vasco Mendonça Alves passadas no tempo da avozinha! E as infelicidades de Ramada Curto! E o talento insólito de Urbano Rodrigues! E as gaitadas do Brun! E as traduções só pra homem do ilustríssimos excelentíssimo senhor Mello Barreto! E o frei Matta Nunes Moxo! E a Inês Sifilítica do Faustino! E as imbecilidades do Sousa Costa! E mais pedantices do Dantas! E Alberto Sousa, o Dantas do desenho! E os jornalistas do Século e da Capital e do Notícias e do Paiz e do Dia e da Nação e da República e da Lucta e de todos, todos os jornais! E os actores de todos os teatros! E todos os pintores das Belas-Artes e todos os artistas de Portugal que eu não gosto. E os da Águia do Porto e os palermas de Coimbra! E a estupidez do Oldemiro César e o Dr. José de Figueiredo Amante do Museu e ah oh os Sousa Pinto hu hi e os burros de Cacilhas e os menos do Alfredo Guisado! E (o) raquítico Albino Forjaz de Sampaio, crítico da Lucta a quem Fialho com imensa piada intrujou de que tinha talento! E todos os que são políticos e artistas! E as exposições anuais das Belas-Artes! E todas as maquetas do Marquês de Pombal! E as de Camões em Paris; e os Vaz, os Estrela, os Lacerda, os Lucena, os Rosa, os Costa, os Almeida, os Camacho, os Cunha, os Carneiro, os Barros, os Silva, os Gomes, os velhos, os idiotas, os arranjistas, os impotentes, os celerados, os vendidos, os imbecis, os párias, os ascetas, os Lopes, os Peixotos, os Motta, os Godinho, os Teixeira, os Câmara, os diabo que os leve, os Constantino, os Tertuliano, os Grave, os Mântua, os Bahia, os Mendonça, os Brazão, os Matos, os Alves, os Albuquerques, os Sousas e todos os Dantas que houver por aí!!!!!!!!!

E as convicções urgentes do homem Cristo Pai e as convicções catitas do homem Cristo Filho!...

E os concertos do Blanch! E as estátuas ao leme, ao Eça e ao despertar e a tudo! E tudo o que seja arte em Portugal! E tudo! Tudo por causa do Dantas!

Morra o Dantas, morra! PIM!

Portugal que com todos estes senhores conseguiu a classificação do país mais atrasado da Europa e de todo o Mundo! O país mais selvagem de todas as Áfricas! O exílio dos degradados e dos indiferentes! A África reclusa dos europeus! O entulho das desvantagens e dos sobejos! Portugal inteiro há-de abrir os olhos um dia - se é que a sua cegueira não é incurável e então gritará comigo, a meu lado, a necessidade que Portugal tem de ser qualquer coisa de asseado!

Morra o Dantas, morra! PIM!

José de Almada Negreiros
Poeta d'Orpheu
Futurista E Tudo

sexta-feira, 14 de março de 2008

Competências-Chave da área de CLC

• Interagir em língua portuguesa, com clareza e correcção, evidenciando espírito crítico, responsabilidade e autonomia.

• Compreender textos longos em língua portuguesa e/ou língua estrangeira, reconhecendo os seus significados implícitos, as suas tipologias e respectiva funcionalidade.

• Evidenciar reflexão sobre o funcionamento da língua portuguesa, apreciando-a enquanto objecto estético e meio privilegiado de expressão de outras culturas.

• Compreender as ideias principais de textos em língua estrangeira e expressar-se oralmente e por escrito com à-vontade sobre diferentes temáticas.

• Evidenciar conhecimento sobre várias linguagens, em diferentes suportes, que lhe permitam perceber as diferenças socioculturais, sociolinguísticas e técnico-científicas, visando uma tomada de consciência da sua própria identidade e da do outro.

• Compreender os mecanismos de funcionamento e produção de contéudos nos mass media, posicionando-se criticamente sobre os mesmos.

• Evidenciar competências interculturais que lhe proporcionem uma maior abertura e aceitação de novas experiências linguísticas e culturais.

• Ter um entendimento amplo de Cultura, reconhecendo neste conceito, desde áreas designadas clássicas e eruditas até novas linguagens e expressões integradoras de formas da cultura popular.

• Perspectivar a dimensão da Cultura enquanto sector articulável com outras esferas de intervenção.

• Reconhecer que o acesso dos indivíduos, desde idades jovens, a actividades de sensibilização para a cultura e as artes constitui uma condição significativa da participação activa dos cidadãos na Cultura.

• Reconhecer o impacto das novas tecnologias de comunicação no acentuar de alguns traços característicos (flexibilidade, pluriactividade) da organização do trabalho cultural.

• Compreender o aparecimento de novas ocupações e profissões no sector cultural como resultante, entre outros factores, do crescente relevo do processo de difusão na existência dos bens culturais e artísticos

terça-feira, 11 de março de 2008

Apresentação Programa CLC - Equipamentos e Sistemas Técnicos

Cultura Língua e Comunicação (CLC)


É de sublinhar que a Língua tem um papel fulcral e único na dinâmica social, pois é um elemento forte da identidade do indivíduo na sua relação com os outros. Ser competente em língua1 contribui não só para o desenvolvimento pessoal, profissional e cultural do indivíduo, mas também para o intercâmbio de ideias entre os cidadãos, na construção de uma sociedade democrática e pluralista. Tal não significa que o desconhecimento da língua deva levar ao ostracismo social, pelo contrário, deve ser o ponto de partida para maior acesso à informação (e às qualificações), intensificando-se as aprendizagens, de forma a se desenvolverem as competências necessárias para que um cidadão saiba agir linguisticamente com consciência, participando na sociedade e expondo claramente as suas ideias. Deste modo, é importante que a pessoa tenha presente os níveis em que a língua pode ocorrer: o linguístico-instrumental, em que a língua serve para falar de outros objectos; o propedêutico, possibilitando o acesso a outros conhecimentos, ciência, tecnologia ou arte (onde estão incluídos os mais diferentes usos da língua, como por exemplo, os lúdicos e os estéticos) e o nível metalinguístico, em que a língua se assume como objecto de análise.

Para comunicar, as pessoas mobilizam estrategicamente, com as respectivas práticas, as suas competências em diferentes contextos, a fim de concretizarem as suas intenções comunicativas, as quais se relacionam mais especificamente com a Língua e conduzem a processos de recepção e de produção de textos significativos, referentes a temas que se enquadram nos domínios em que se organiza a vida social. Assim, para a participação nos eventos comunicativos, não basta um sistema exclusivamente linguístico, isto é, o falante, utilizador de uma língua, move-se igualmente num sistema de acção social e é portador de um código cultural enraizado socialmente que interpreta as realidades a que se refere.


Na impossibilidade de se descreverem os vários ângulos (e teorias) sob os quais pode ser vista a comunicação (linguístico, psicológico, sociológico, artístico…), esta engloba diferentes linguagens, não só a escrita e a falada, mas também todas as outras linguagens que fazem parte da comunicação humana, como a matemática, a tecnológica, a pictórica, a musical, a teatral, a gestual (dança) e, duma forma geral, todas as linguagens artísticas. A comunicação como campo transversal a diferentes saberes ultrapassa a mera troca de mensagens; interliga fortemente arte, ciência, teoria e prática. Em sentido restrito, comunicação pressupõe ainda um sujeito falante e implica fenómenos que estão ligados à transmissão de mensagens inseridas nos domínios em que se desenrolam as situações de comunicação, e em particular a interpretação e apropriação de conteúdos e lógicas predominantes nos media.


in:
REFERENCIAL DE COMPETÊNCIAS-CHAVE - para a Educação e Formação de Adultos – Nível Secundário;
Direcção-Geral de Formação Vocacional (DGFV)
http://www.min-edu.pt/outerFrame.jsp?link=http%3A//www.dgfv.min-edu.pt/