terça-feira, 12 de março de 2013

"Retratos" - Documentário de Luísa Homem

"Retratos" é um documentário encomendado à jovem realizadora Luísa Homem, pela Fundação Calouste Gulbenkian no âmbito do Fórum Gulbenkian Imigração. O documentário apresenta-se como um conjunto de breves depoimentos de imigrantes residentes em Portugal, cujas aspirações, frustrações e perspectivas são as mais variadas. Portugal e os portugueses vistos pelos imigrantes.

Finding Vivian Maier - Official Movie Trailer



A. M. PIRES CABRAL - COMPUTADOR NO LIXO


Eis um computador
no lixo. E todavia
o crânio de lata teve memória dentro
– gigabytes dela! –,
fez as quatro operações,
aceitou versos
no seu imaculado
vazio virtual.

Agora já não soma
nem subtrai,
nem geme poemas, nem sublinha
erros de ortografia.
Os pingos de solda, precários
neurónios de metal,
perderam a memória.

Já que te antecipaste,
companheiro,
diz-me como é não funcionar.

E se a ferrugem dói.


Como se Bosch Tivesse Enlouquecido, João Azevedo Editor, Mirandela, 2003.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

CIBERESPAÇO E A ARQUITECTURA DOS «NÃO LUGARES» HABITADOS POR «HOMENS SEM QUALIDADES»

Hugo Ferrão *

A criação do termo cyberespace (ciberespaço) é atribuída a William Gibson  autor  do livro  de  ficção  científica  cyberpunk - Neuromancer (neuromante)  (1984),   no   qual esboça   a   ideia   de   ciberespaço,   sendo posteriormente   apropriada   pela comunidade   científica   norte-americana como potencial campo-espaço cibernético no qual confluem todos os media digitalizados,  libertando  uma  memória  colectiva incomensurável  de  um rigor nunca atingível pela mente humana. 

William Gibson associa a origem do ciberespaço aos ancestrais jogos electrónicos  e  aos «jogos  de  guerra»  desenvolvidos  pelos  programas  das instituições  militares,  duranteo  período  da  «guerra  fria»,  programas  esses apoiados  na  investigação  científica  e inovação  tecnológica  de  ponta.  Esta estratégia  tornou-se  mais  visível  e  conhecida nos  Estados  Unidos,  e concretizou-se  através  projectos  como  a  ARPA  -  Advanced  Research  and Projects  Agency,  (1957)  da  NASA  -  Nacional  Aeronauticas  and  Espace Administration  (1958)  ou  da  ARPANET  em  1969  e  no  envolvimento  de algumas universidades com  o  objectivo  de  organizar  oceanos  de  dados, realizar o seu tratamento de forma a que a informação resultante permitisse reagir  rapidamente  em caso  de  ataque  nuclear.  Gibson  define  ciberespaço em Neuromante da seguinte maneira:

«O  ciberespaço.  Uma  alucinação  consensual,  vivida  diariamente por  biliões  de operadores  legítimos,  em  todas  as  nações,  por  crianças  a quem  se  estão  a  ensinar  conceitos  matemáticos.  Uma  representação gráfica  de  dados  abstraídos  dos  bancos  de  todos  os  computadores  do sistema humano. Uma complexidade impensável. Linhas de luz alinhadas no não espaço da mente; nebulosas e constelações de dados. Como luzes de cidade, retrocedendo.»

O grau de complexidade subjacente à ideia de ciberespaço tem a sua raiz conceptual no sufixo «cyber», (ciber) que nos projecta numa dimensão «imaginotécnica»,  indissociável    da    artificialidade    do    pensamento cibernético,  cuja  particularidade  reside  na construção  de  modelos  em qualquer  domínio  do  conhecimento,  indiferentemente das  categorias  pré-estabelecidas,   provocando   a   contaminação   e   interligação   de  áreas aparentemente  afastadas,  congregando  múltiplas  constelações  disciplinares que fazem parte do conhecimento humano.

O  conceito  de  cybernetics  (cibernética)  é  da  autoria  de  Norbert Wiener (1894 -1964),  um  matemático  norte-americano  que  publica  através do   Massachusetts Institute   of   Technology,   (1948)   o   livro   intitulado Cybernetics,  or  Control  and Communication  in  the  Animal  and  the Machine, elaborando uma teoria de comando e comunicação aplicável tanto à  máquina  como  ao  homem,  este  mesmo  livro  é posteriormente  (1961) complementado com uma segunda parte, na qual encontramos o capítulo XI - Sobre Máquinas que Aprendem e se Autoreproduzem, onde faz um alerta para o elevado risco e nível de complexidade das futuras máquinas: [...] 

continua aqui 

1
  Cyberpunk,  é  o  termo  que  denomina  uma  corrente  literária  de  ficção  científica  que caracteriza  a  cibercultura  das  décadas  de  80  e  90  da  qual  fazem  parte  William  Gibson, Bruce  Sterling,  John  Shirley,  Mark  Dery,  Michael  Swanwick  e  Walter  Jon  William. Cyberpunk  está  também  associado  à  identificação  de  um  movimento  essencialmente informático,  uma  «tribo  electrónica»  com  posicionamento  de  contra-cultura  fortemente sustentado. 

terça-feira, 25 de setembro de 2012

"Retratos" - Documentário de Luísa Homem

"Retratos" - é um documentário encomendado à jovem realizadora Luísa Homem, pela Fundação Calouste Gulbenkian no âmbito do Fórum Gulbenkian Imigração. O documentário apresenta-se como um conjunto de breves depoimentos de imigrantes residentes em Portugal, cujas aspirações, frustrações e perspectivas são as mais variadas. Portugal e os portugueses vistos pelos imigrantes. Documentário: http://zappiens.pt/Z0685

segunda-feira, 26 de março de 2012

Arte interactiva – visitas virtuais


Arte interactiva – visitas virtuais
Maria Pires
 
Publicado 03/06/2011
Iniciativas como o Google Art Project, ( http://www.googleartproject.com/c/faq), a proliferação dos Museus Digitais ou a Reprodução Fotográfica do Mundo (http://www.360cities.net/), propõem visitas virtuais e aderem ao conceito de “arte interactiva”e ou “visitas virtuais”; obrigam-nos a reflectir sobre o papel dos novos media na tentativa de cumprir um velho adágio “se Maomé não vai à montanha, a montanha vai (ou é levada!) a Maomé” e sobre a forma como a realidade se molda, expande, contrai ou deforma, neste percurso.

Tradicionalmente, os museus proibiam/proíbem fotografias ou filmes das obras expostas. No entanto é agora muito comum a sua participação em iniciativas e projectos virtuais de divulgação. Perguntamo-nos se será esse mesmo o principal objectivo destas mostras virtuais e interactivas – a “divulgação” massiva, acenando virtualmente com “a montanha a Maomé” como incentivo a que “Maomé procure fazer uma visita real à montanha”, ou seja ao museu ou ao local de paisagem natural fascinante? Simplesmente uma tentativa arrojada de resgatar a “aura” do original, isto é, procurar sobrepor-se às réplicas falsas ou de pouca qualidade “oficializando” de certa forma o estatuto artístico da “réplica”?

Voltemos aos exemplos citados e à reflexão proposta. A observação de detalhes que não são perceptíveis in loco e o paralelismo com a ideia de reprodução dos postais, remetem-nos para conceitos como a hipermediacia, imediacia e remediação, descritas por Jay David Bolter e Richard Grusin em “Remediation: Understanding New Media”.

No projecto do Google tanto nos é dada a ilusão de que estamos num local fictício e estamos a viajar dentro de um museu, como ao mesmo tempo essa ilusão é quebrada pela presença constante de menus que nos guiam e são essenciais à nossa navegação. Por outro lado, a todo o instante podemos carregar numa hiperligação e “olhar” ou “ver” com maior pormenor os quadros, de uma forma que não poderia ser feita in loco, o que evidência o facto de não estarmos realmente naquele local, mas sim num mundo virtual criado a partir do mundo real e físico do museu e que remedeia, através da sua forma de navegação, a visita a um museu.

No site “360Cities” podemos também ver, além de algumas das coisas já indicadas no projecto de arte do Google, um clara remediação das ideias dos postais que surgem no séc. XIX e dos micro filmes dos irmãos Lumière, onde, para lá de observar um local podemos também explora-lo, dentro das limitações que a composição da fotografia permitem, como também optar, ou tentar optar, por diferentes perspectivas dentro do mesmo local captado.
A decomposição dos objectos digitais modularmente, como descreve Lev Manovich em “The Language of New Media”, é uma constante destes projectos.

O processo da fotografia digital só é conseguido graças a essa “pixelização”, evidente até mesmo no título de algumas fotografias, como é o caso da maior fotografia de interiores com o título “Strahov Library 40 Gigapixels”. Mas também a montagem de um ambiente em 360º a partir da fotografia se faz a partir da montagem de várias fotografias tiradas no local e relacionando elementos comuns, dando-nos a ilusão de que nos deslocamos no local através das tomadas de perspectiva diferentes e montadas como um só.

Ao observarmos como o virtual tenta penetrar num espaço social e físico, tentando substitui-lo, é-nos proposta a reflexão sobre a substituição da arte pela réplica. Há aspectos fascinantes que nos são disponibilizadas através da réplica e aos quais não teríamos acesso numa visita presencial. Mas este é um dos factores chave que ajudam a proliferar esta prática que promove a cultura de massas, que se alimenta do rápido, fugaz, cómodo e desprovido da reflexão própria da relação que é suposto poder estabelecer-se entre a obra e o interlocutor; é o “aqui e agora” que se vê desvirtuado, como diz  Walter Benjamin, em ‘ A Obra de Arte na Época da sua Possibilidade de Reprodução Técnica’ [1935], é a substituição do objecto real e do seu contexto verdadeiro. E Maomé receberá, sem se aperceber, uma “montanha” diferente daquela que não chegou a visitar.

A organização da sociedade em rede torna o mundo mais pequeno mas afasta cada vez mais as pessoas umas das outras, dos objectos e dos contextos reais. Marshall McLuhan em “Understanding Media: The Extensions of Man” quando refere a Era Electrónica, descreve os médios electrónicos focando o seu favorecimento da participação e a espontaneidade dos indivíduos, mas também a sua contribuição para a re-tribalização da humanidade com a emergência da ideia da “aldeia global” e para o declínio do pensamento lógico e linear.

Maria Pires

IN: http://digartmedia.wordpress.com/2011/06/03/arte-interactiva-%E2%80%93-visitas-virtuais/
http://www.googleartproject.com/

http://www.googleartproject.com/


Guião de Navegação
http://www.googleartproject.com/c/faq

Arte Interativa






Alba Fernanda Triana - Partitura Sonora
http://www.albatriana.com/-/AlbaTriana.html



Instrumento Musical Interativo
http://www.albatriana.com/-/Gamelan_EN.html

domingo, 11 de março de 2012

Empreendedorismo Social

Qual a diferença entre Empreendedorismo e Empreendedorismo Social?


É consensual, na literatura académica, apontar como principal característica distintiva do empreendedorismo social a missão de criar e maximizar o valor social, por intermédio de actividades inovadoras, ao invés da geração de lucro inerente ao empreendedorismo.

Assim, enquanto um empreendedor comercial procura oportunidades de criar e capturar valor económico, para um empreendedor social, o foco da atenção é o problema da sociedade a resolver, mesmo que a resolução desse problema não pareça permitir fazer lucros. O empreendedor social procura maximizar a criação de valor social para a sociedade, satisfazendo a captura de valor (para si e para a sua organização) a um nível que assegure a sustentabilidade da solução a longo prazo.

In: http://www.ies.org.pt/

terça-feira, 6 de março de 2012

Alberto Manguel – “Estamos a destruir o valor do acto intelectual”

Julho 15, 2010
Ensaísta, escritor de ficção – mas talvez, acima de tudo, leitor. Instalou a sua magnífica biblioteca pessoal num presbitério medieval francês, onde reside. De passagem por Lisboa, Alberto Manguel falou com o Ípsilon.
Os livros e a leitura sempre nortearam – e ainda norteiam – a vida de Alberto Manguel. Aprendeu a ler por volta dos três anos e nunca mais parou. Quando era adolescente, leu em voz alta, durante vários anos, para Jorge Luis Borges, que tinha ficado cego. Mais tarde, começou a escrever sobre livros, leituras e leitores – e o seu “Uma História da Leitura” (publicado em Portugal em 1999 pela Presença) tornou-se um best-seller mundial.
Nasceu em Buenos Aires em 1948, criou-se em Israel, fez o liceu na Argentina, viveu em sítios longínquos como Taiti. Nos anos 1980 mudou-se para Toronto, no Canadá, e tornou-se cidadão canadiano. De há 10 anos para cá, vive no Sul de França.
As suas primeiras línguas foram o inglês e o alemão e só mais tarde viria o espanhol, explicou Manguel em Lisboa, durante uma conversa pública na semana passada com Francisco José Viegas, no âmbito do Festival Silêncio. “Os meus pais quiseram que eu tivesse uma aia checa de língua alemã que me falasse inglês. Eles, por seu lado, falavam espanhol e francês – o que significa que eu não falei com os meus pais até aos oito anos…” Sentido de humor e simpatia irresistíveis. O eclectismo de Manguel não se limita à geografia e à linguística. Eterno leitor de Homero ou Dante, adora novelas policiais e ficção científica e não alinha nas modas nem nos cânones estabelecidos. “Há grandes obras, que reconheço que são grandes obras, mas que a mim não me interessam.”
Gosta muito de ler na cama e está “sempre a ler”. Todos os dias, antes de tomar o pequeno almoço, lê um canto de “A Divina Comédia” (“é o meu yoga”). Fala dos 40 mil livros que compõem a sua imponente biblioteca, instalada numa ruína medieval restaurada, como se de 40 mil filhos se tratasse (ele próprio tem três, já crescidos).
O ebook, explicou ainda, não é mais do que “uma tábua de argila com mais memória”, acrescentando que – cúmulo da ironia -, depois de termos abandonado os rolos de pergaminho para adoptar o codex com as suas páginas encadernadas, muito mais prático de ler, voltamos… a fazer scroll às páginas nos ecrãs de computador…
Não usa telemóvel, nem Internet, não tem email. Não os acha úteis. Os amigos ofereceram-lhe um site pessoal nos seus 60 anos (alberto.manguel.com), que “ao que parece, funciona muito bem”. No fundo, a Internet é como uma grande biblioteca – e ele já tem a dele.
A sua obra está toda ela dedicada ao lado maravilhoso da leitura, do acto de ler. A sua paixão pela leitura vem de onde? Nasce-se leitor ou uma pessoa torna-se leitora?
Penso que somos animais leitores. Vimos ao mundo com uma certa consciência de nós próprios e do que nos rodeia e temos a impressão de que tudo nos conta histórias: a paisagem, o rosto dos outros, o céu, em tudo encontramos linguagem. Tentamos desentranhá-la, tentamos lê-la. Nesse sentido, não podemos existir enquanto seres humanos sem a leitura. Inventámos a linguagem escrita, a linguagem oral, para tentarmos comunicar essa experiência do mundo, para nos contarmos histórias e através delas, falar dessa experiência. No meu caso, o conhecimento do mundo passou sempre pelos livros. Tive uma infância um pouco particular: o facto de o meu pai pertencer ao corpo diplomático fez com que viajássemos muito e que eu não tivesse nenhum sítio onde me sentisse em casa. A minha casa estava nos livros. Regressar à noite aos livros que conhecia, abri-los e constatar com imenso alívio que o mesmo conto continuava na mesma página, com a mesma ilustração, dava-me uma certa segurança e um certo sentido do lar.
Mas nem toda a gente é leitora…
Nem toda a gente é leitora, mas acho que, no fundo, é porque as circunstâncias fazem que não sejamos todos leitores. A possibilidade está em todos nós. O que quero dizer é que suponho que há pessoas que nunca se apaixonam, suponho que há pessoas que nunca viajam, suponho que há pessoas que não têm uma certa experiência do mundo. E da mesma maneira, existem muitas pessoas que não são leitoras. Mas a possibilidade está dentro de nós.
A proporção de leitores numa dada sociedade nunca foi muito grande – seja na Idade Média, seja no Renascimento ou no século XX. Os leitores nunca foram a maioria. Se, por exemplo, todos os espectadores de um único jogo de futebol comprassem um livro, uma tarde, esse livro passaria a ser o best-seller mais espectacular da História da literatura.
Pensa que, para além de não haver muitos leitores, a leitura está a perder terreno neste momento?
O que está a perder terreno é a inteligência. Estamos a tornar-nos mais estúpidos porque vivemos numa sociedade na qual temos de ser consumidores para que essa sociedade sobreviva. E para ser consumidor, é preciso ser estúpido, porque uma pessoa inteligente nunca gastaria 300 euros num par de calças de ganga rasgadas. É preciso ser mesmo estúpido para isso.
Essa educação da estupidez faz-se desde muito cedo, desde o jardim de infância. É preciso um esforço muito grande para diluir a inteligência das crianças, mas estamos a fazê-lo muito bem. Estamos a conseguir destruir aos poucos os sistemas educativos, éticos e morais, o valor do acto intelectual.
É reversível?
Espero bem que sim. Mas receio que piore antes de melhorar. Falando apenas em livros e literatura, as grandes empresas internacionais tomaram posse da indústria editorial e transformaram o acto literário num modelo de supermercado. Mas continua a haver escritores, pequenos editores, há uma espécie de movimento de resistência – que também passa, por exemplo, pela tecnologia electrónica. Isso faz-me pensar que vamos sobreviver… mas não sei se o meu optimismo se justifica.
Estamos a ler de forma diferente?
Penso que o que está a acontecer, como acontece em tempos de crise, não é o facto de termos passado a ler de forma diferente, mas de estarmos a tornar-nos mais conscientes do que significa ler, ser leitor, do que é a literatura. Estamos a interrogar-nos sobre essa actividade simplesmente porque ela está ameaçada. Antes de o urso polar entrar na lista das espécies em perigo, ninguém falava dos ursos polares – não era um tema de conversa corrente [ri-se]. Surgiu porque os ursos polares estão em perigo. É porque os leitores sentem um perigo que começaram a reflectir sobre o que significa o acto de ler.
Alguém disse que quando ganhámos o elevador, perdemos as escadas. O que perdemos quando passamos do livro em papel para o ebook?
Eu não prescindiria do elevador nem das escadas. Se tivesse de passar seis meses no Pólo Norte, dava-me muito jeito levar um livro electrónico – se houvesse baterias que durassem seis meses. O problema não está na invenção de novos suportes para a leitura. Surge quando esses suportes são promovidos por razões puramente económicas e nos tentam convencer a substituirmos tudo por esse único suporte.
A indústria faz constantemente isso e é o que está a acontecer com os livros. Existe actualmente nos Estados Unidos um movimento para acabar com os livros em papel nas bibliotecas das universidades. São tontices: o problema não tem a ver com a electrónica nem com o livro impresso, tem a ver com um comerciante ganancioso que quer vender computadores.
Mas os editores não querem vender computadores, têm medo deste fenómeno.
Têm medo, mas cada vez mais os contratos de edição incluem os direitos para o ebook. Não acho que isso seja um problema. Paulo Coelho, que não é uma pessoa conhecida pelas suas ideias filantrópicas, colocou todos os seus livros na Internet porque percebeu que as pessoas que liam os livros em formato electrónico iam a seguir comprar o verdadeiro livro.
O livro electrónico é mais uma forma de ler e tudo depende de como queremos ler. Se quiser apenas ler um texto, conhecer um texto, tanto me faz que seja num ecrã ou num livro electrónico. Mas se quiser ler como costumo ler – eu, Alberto Manguel -, fazendo anotações nas margens, passando da página 74 para a página 32 para depois ir espreitar a página 3, não posso fazer isso com um livro electrónico – ou talvez possa, mas é mais complicado. A mim o ebook não me é útil – mas percebo perfeitamente que o seja para outros.
Gostemos ou não, o futuro não será electrónico na mesma?
O futuro não – o presente. O futuro, esse, não sei como vai ser. O meu filho utiliza hoje a electrónica para tudo, para ouvir música, para falar ao telefone, para ler, para comprar bilhetes de avião – tudo passa pela electrónica. Mas também lê livros, também ouve CD de música e discos de vinil. Estamos num presente cuja tecnologia é electrónica – é absurdo negá-lo. Mas daqui a 10 ou 20 anos, vamos dizer: “Ainda usas um computador? Não tens um pffttt?” (não sei que nome iremos dar a tecnologia que virá a seguir).
Estamos a mudar de objectos quotidianos a um ritmo impressionante. Mas nada disso me assusta, faz parte da nossa realidade. O que me assusta é a nossa utilização desses instrumentos e a falta de liberdade com a que os utilizamos. Estamos a transformar-nos cada vez mais em meros consumidores. É essencial reflectirmos sobre isso, porque estamos a perder uma liberdade que define a nossa condição humana.
É muito importante sabermos por que usamos uma coisa. Eu não uso telemóvel, não uso a Internet, não tenho email, mas é uma escolha, não é uma resistência contra algo que me poderia servir. A mim, essas coisas não me servem. Percebo perfeitamente que um cirurgião, que pode ser chamado de urgência, precise do telemóvel, mas a ideia dessa presença constante, dessa comunicação constante, dessa urgência constante, é totalmente falsa. E nós aceitámo-la – mas espero que consigamos reagir. Já chega, já brincámos com todos esses brinquedos e agora vamos pensar um pouco para saber se realmente precisamos deles.
A Internet permite associar ideias, inclusive literárias, quase como se fosse por acaso. Não pensa que isso pode expandir a imaginação?
Essa é precisamente a forma como usamos uma biblioteca. Há mesmo uma biblioteca – que para mim é o arquétipo das bibliotecas -, que é a de Aby Warburg [historiador, 1866-1929]. Foi instalada em Hamburgo em inícios do século XX e é uma biblioteca “associativa” no sentido em que Warburg colocava os livros na ordem em que ele os associava. Ele desenvolveu, por exemplo, uma “lei do leitor”, e em particular uma “lei do bom vizinho”, segundo a qual a informação de que estamos à procura se encontra sempre no livro ao lado daquele que tirámos para consulta [ri-se]. A leitura é uma actividade associativa, sempre foi.
Procuramos uma informação, lemos um livro e ao lado desse livro há outro e é assim que construímos as nossas bibliotecas e as nossas cronologias.
O problema com a Internet é que nos dá a ilusão de possuirmos toda a informação que contém. Mas o facto de essa informação existir não significa que seja nossa. Temos de saber procurá-la, saber se é fiável ou não, saber utilizar as associações que fazemos. Podemos brincar com a Internet dias a fio, à procura de anedotas, de bocados de informação recôndita, etc. É óptimo, mas tem de haver uma actividade mental capaz de incorporar, destilar, recriar essa informação. Ora, um dos grandes problemas actuais dos bibliotecários é que os jovens que chegam às bibliotecas, e que estão habituados a utilizar a Internet para fazer uma espécie de colagem de informação, não sabem ler. Não sabem percorrer um texto para extrair aquilo que precisam, repensá-lo, dizê-lo com as suas próprias palavras, comentá-lo, associá-lo ou resumi-lo – e sobretudo, memorizá-lo -, actividades que fazem parte da leitura enquanto acto criativo. Estão habituados à ideia de que, como isso está lá e está acessível, já é deles. Não é assim.
Isso não é mais a culpa da escola do que da Internet?
A escola não tem culpa, é a nossa sociedade que é culpada. A escola, a universidade, deveriam ser o lugar onde a imaginação tem campo livre, onde se aprende a pensar, a reflectir, sem qualquer meta. Mas isso é algo que estamos a eliminar em todo o mundo. Estamos a transformar os centros de ensino em centros de treino. Estamos a criar escravos. Somos a primeira sociedade que entrega os seus filhos à escravidão, sem qualquer sentimento de culpa. Nesses centros de aprendizagem, estamos a criar seres humanos que não confiam nas suas próprias capacidades e que começam a acreditar que o seu único objectivo na vida é arranjar trabalho para conseguir sobreviver até chegar à reforma – que também já lhes estão a tirar. O que estamos a fazer é horrível. Não tem nada a ver com os valores da Internet, com a competência do professor, faz tudo parte de um conjunto. Somos culpados enquanto sociedade.
Você é um leitor que escreve livros? É mais leitor do que escritor? Não devia, pelo contrário, ser mais escritor do que leitor, depois tantos livros escritos?
Eu comecei por ser leitor. No queria escrever. Depois, tornei-me um leitor que escrevia livros. Mas quando comecei a escrever ficção – um romance intitulado “Notícias del Extranjero” [vai em breve ser editado em Portugal pela Teorema sob o título "Novas chegaram de outro país"] -, a situação mudou. É que, para escrever ficção – embora continuemos a escrever com esse fundo que acumulámos como leitor, com a visão do mundo que nos dão as nossas leituras – e criar um mundo fictício, temos de nos retirar da nossa biblioteca e passar a trabalhar sozinhos.
Não podemos escrever romances a partir de outros romances, porque acabaríamos por parodiar os romances que nos inspiraram. Enquanto o escritor de ensaios trabalha a partir de informação recebida e de uma reflexão acerca dessa informação, o escritor de ficção tem de estar só, num espaço em que se torne possível inventar o mundo praticamente de raiz – as personagens, o espaço, a história. No início, essa ideia metia-me muito medo; agora, é o que mais gosto de fazer.
Acho que a ficção é um instrumento excelente para dar forma a certas perguntas. O ensaio é útil, claro, mas é por vezes demasiado preciso. A ficção permite uma ambiguidade que pode ser mais útil para determinadas perguntas muito complexas. Por exemplo, o tema que me persegue desde o início é a relação entre verdade e ficção, mentira e ficção, mentira e verdade.
Um dia percebi que, desde as minhas primeiras leituras, o que me interessava era saber como distinguimos uma experiência que nos traduz o mundo de uma experiência que atraiçoa o mundo. Como distinguimos a ficção da mentira, a ficção da verdade? Não penso que nos seja possível termos uma visão verdadeira, total, do mundo. Acho que podemos ter acesso a um certo ponto de vista – e é esse ponto de vista que vai sendo definido através das histórias que contamos.
E isso tem a ver com a escrita ficcional?
Sim. Quando temos uma experiência do mundo, o nosso impulso é transpô-la em palavras para a perceber. Por vezes, encontramos nos escritos que lemos as palavras que nos parecem justas. Mas, doutras vezes, queremos ser nós próprios a nomear essa experiência. O problema é que, ao mesmo tempo, sabemos que a linguagem é imprecisa, que nunca chega para definir sequer as coisas mais simples. Então recorremos não apenas à linguagem, mas também à história que contamos através da linguagem. E assim, através dessa experiência que inventamos, criamos uma espécie de espelho da experiência que queremos contar. Por exemplo, todos temos medo do desconhecido. Temos medo do que pode ser falso, da aparência das coisas. Mas como explicar esse medo? Inventando o conto do Capuchinho Vermelho. Dessa forma, sem necessariamente nomear esse medo, o conto transmite-no-lo através de uma experiência que sabemos ser fictícia, mas que no entanto conseguimos viver através da linguagem.
O seu amor pelas bibliotecas vem de onde? Da sua juventude, quando lia para Borges (que era uma espécie de biblioteca ambulante e anotada), da biblioteca da casa do seu pai em Buenos Aires, onde se escondia para ler?
Não. A minha relação começou quando tinha três, quatro anos. Por um lado, é uma relação fetichista – o objecto- livro apaixona-me – e por outro, é uma relação de conhecimento. O conhecimento do mundo vem-me, em primeiro lugar, dos livros.
Para Borges, o conhecimento do mundo também passava pelos livros, mas ele não tinha qualquer relação fetichista com os livros. Não estava interessado em guardar livros – oferecia-os, tinha poucos livros. Eu ofereço muitos livros, mas compro livros para os oferecer. Por vezes, ofereço livros da minha biblioteca – mas o que nunca faço é emprestar livros, porque isso é um apelo ao roubo.
Disse que quando de leitor passou a escritor, teve de sair da sua biblioteca.
Não é bem isso, uma vez que escrevo na minha biblioteca. Há uma secção, com dois andares, onde também há livros, mas onde tenho o meu escritório, com os meus objectos dispostos de uma certa maneira. Sou muito picuinhas nesse sentido. O que quis dizer é que, quando escrevo, preciso de esquecer-me daquilo que li. Posso ler certos livros; há autores que não me contagiam. Mas há outros que não posso ler de forma alguma – Borges, Calvino, Chesterton – porque são como aquelas melodias que nos ficam na cabeça e que passamos o dia a cantarolar. Tento ler textos mais neutros.
Mais distantes dos temas sobre os quais está a escrever?
Não necessariamente, apenas os que têm uma voz menos imponente. Há grandes escritores cuja voz é muito mais suave. Autores como Conrad, por exemplo, de quem gosto muito, ou Bioy Casares, cuja voz não é contagiosa.
A sua biblioteca parece ela própria como uma personagem de romance: imponente, secreta, maravilhosa. Contém 40 mil livros e está instalada num presbitério.
Sim. O presbitério, que era a casa do padre, está colado à igreja [da aldeia]. E tem um enorme jardim, onde havia um estábulo de pedra que tinha sido demolido há três séculos. Nós reconstruímo-lo e foi aí que instalei a biblioteca.
É caótica ou organizada?
É muito organizada. Sei onde está cada livro. A ordem principal é a da língua em que o livro foi escrito. Há uma secção de inglês, de castelhano, de italiano… E dentro dessa ordem, a ordem alfabética. Mas depois há muitas excepções, com secções sobre a Bíblia, sobre mitologia, lendas do Judeu Errante, cozinha, romances policiais…
Não sente frustração quando pensa que há jóias literárias que lhe passam ao lado?
Não. Quando era adolescente, angustiava-me pensar que nunca iria poder ter nem ler todos os livros que queria. Mas essa angústia passa-nos e transforma-se numa espécie de alívio [ri-se]. É óbvio que não vou ler tudo o que é publicado, é óbvio que nem vou ter conhecimento de tudo aquilo que é publicado. Aliás, prefiro concentrar-me em certos livros.
O tipo de leitura que pratico agora, nesta idade – embora continue a ler algumas coisas novas – é a releitura. Por exemplo, há já mais de dois anos que leio um canto de Dante todas as manhãs, antes de tomar o pequeno almoço [ri-se] – com um comentário diferente, tomando notas.
Já completei esse percurso umas dez vezes. É um tipo de leitura que faço por prazer – e que me parece infinito. Nunca vou conseguir saber o suficiente acerca da “Divina Comédia”, mas felizmente, já não tenho aquela angústia. É como pensar em sítios que nunca visitarei, pessoas que nunca conhecerei. Que alívio! [ri-se]
Lê sobretudo ficção, ou também não ficção?
Leio principalmente ensaios – porque escrevo ensaios e portanto certos temas me interessam em particular. Também leio ficção, mas acho que, aí, preciso de uma certa distância cronológica, de sentir-me numa geração muito posterior ao texto. É-me difícil ler os meus contemporâneos. Há alguns autores actuais de quem gosto muito – entre os argentinos, Eduardo Berti, Edgardo Cozarinsky; em França, Pascal Quignard, Jean Echenoz; na Alemanha, Daniel Kehlmann; entre os americanos Cynthia Ozick (gosto mesmo muito dela), Richard Ford. Mas não gosto de nenhum escritor daquela geração [norte-americana] de [Jonathan] Franzen, [Dave] Eggers. Parecem-me todos saídos da mesma máquina, com romancezitos bem montados que soam modernos e que toda a gente terá esquecido daqui a 10 ou 20 anos.
E os romances policiais, a ficção científica?
Gosto imenso. A ficção científica – e eu diria que o romance policial também – já não são os romances de género que foram no passado. Os escritores que acabei de nomear escrevem romances policiais; [Margaret] Atwood escreve ficção científica, Doris Lessing também.
Há umas gerações uma pessoa não erudita, mas culta, tinha a obrigação de ter lido certos livros. Hoje, essa ideia parece ter sido esquecida.
A questão é que deixámos cair a noção de “ser culto”. Agora, não passa pela cabeça de ninguém dizer que uma pessoa é culta ou não é culta. Como já disse, há uma perda de prestígio do acto intelectual. Hoje, uma pessoa pode admitir que é estúpida, que passa o seu tempo a jogar jogos de vídeo ou que só se interessa pela moda. Não vai chocar ninguém. Antes, tínhamos vergonha de dizer coisas dessas, mas hoje é espantoso ver o número de pessoas adultas que jogam jogos totalmente imbecis.
Há leitores que só querem ler coisas novas.
Mas essa é a tal política do supermercado. Não vamos ao supermercado comprar um produto do ano passado, mas coisas que ainda não passaram do prazo. É o mesmo com os livros: agora, têm um prazo de caducidade. Passadas três semanas, o que não foi vendido desaparece. É uma política muito perigosa.
Mas ler os clássicos na escola continua a fazer sentido. “Os Lusíadas” de Camões, por exemplo.
Claro que continua. Os grandes clássicos não foram escolhidos por ninguém; não há um comité que decide que Homero é importante. O que houve foram cem gerações de leitores que disseram que esse livro é importante. É isso que define o clássico, é a obra que não se esgota junto dos seus leitores. E isso continua a ser importante, embora muitos leitores – e muita gente – não o reconheçam. As crianças têm uma imaginação activa, uma inteligência activa. Querem aprender a pensar. Na Idade Média, amarrava-se as crianças ao berço para as imobilizar. Hoje, amarramos a mente das crianças exactamente da mesma forma. Se me confiarem uma turma de crianças, comprometo-me a fazer com que elas leiam Camões com muitíssimo entusiasmo. É preciso dizer-lhes que são inteligentes e que vão conseguir ler essa obra. As crianças adoram palavras complicadas, termos difíceis, histórias onde não se percebe tudo. Mas a indústria não quer isso, quer tornar as coisas mais simples – e então fazem resumos, simplificam, publicam coisas idiotas para crianças e acabam por não publicar nada. Apenas jogos de vídeo.
A nova geração continua a ter gosto pela leitura. Para o ser humano, o instinto de sobrevivência não se resume à necessidade de comer e beber; também inclui a necessidade de pensar. E isso é verdade seja onde for – aconteceu nos campos de concentração, acontece nas favelas mais pobres, acontece nas situações mais extremas. Continuamos a pensar, a criar, a interrogarmo-nos. E temos de lutar por isso. Não somos cegos; podemos dizer que não.
Diz que se sente mais canadiano do que outra coisa. Porquê?
Ser canadiano foi uma escolha. Cheguei ao Canadá sem saber o que era o Canadá. Fui lá porque um dos meu livros foi publicado lá e teve muito êxito. Podia ter sido na China. Ora, no fundo, eu nunca tinha realmente vivido numa democracia. E de repente cheguei a um país onde votar tinha significado, onde a voz de um indivíduo na sociedade tinha significado, onde existia uma responsabilidade cívica. Queria pertencer a esse país!
Para mais, cheguei lá em finais dos anos 1970, inícios dos anos 1980, no meio de um verdadeiro boom cultural. Queriam criar uma cultura canadiana, que até lá tinha sido inglesa, britânica ou americana. Por isso, se uma pessoa quisesse montar uma peça de teatro, fazer um filme, escrever um livro, não havia qualquer problema. Foi assim que, eu, um estrangeiro, comecei a fazer rádio, televisão, todo o tipo de coisas. Isso nunca me tinha acontecido nem nunca me aconteceu depois em mais sítio algum.
Não acredito nas nacionalidades impostas. O facto de nascer num sítio é um puro acaso, não define nada. Enfim, se nos criarmos lá, se estudarmos lá, então sim. No meu caso, a Argentina foi importante por causa de minha educação secundária. Fui aluno do Colégio Nacional de Buenos Aires [liceu que depende da Universidade de Buenos Aires] e isso definiu-me. É uma parte de mim próprio que aceito. Mas o Canadá foi uma escolha. Por isso, continuo a declarar-me canadiano – apesar de haver lá agora um governo de direita imundo.
A leitura e a escrita vão desaparecer? Há quem pense que vamos regressar a uma espécie de tradição oral high-tech graças a computadores capazes de comunicar através da fala.
A tradição oral não tem nada de mau. O problema é quando a tradição não é oral, mas feita apenas de conversas que nunca chegam a ter lugar. Já eliminámos até os locais onde conversar. Ainda há alguns cafés, mas todos têm televisão, música. E mesmo esses estão a desaparecer.
Nós também iremos provavelmente desaparecer. Mas se sobrevivermos como seres humanos – o que não é seguro – fá-lo-emos com a linguagem escrita, com a linguagem falada e com a linguagem lida. Vamos sobreviver com os nossos livros. Se desaparecermos, os livros também desaparecerão. E no fundo, isso talvez seja uma coisa óptima para o planeta – para as árvores, para as formigas, para os ursos polares…


02.07.2010
Por: Ana Gerschenfeld

in: http://novaziodaonda.wordpress.com/2010/07/15/alberto-manguel-estamos-a-destruir-o-valor-do-acto-intelectual/

através de: https://www.facebook.com/pages/L%C3%ADngua-Morta/355179134497902

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Eduardo Lourenço é o Prémio Pessoa 2011



Público - 16.12.2011 -  Por Ana Dias Cordeiro

O filósofo e ensaísta Eduardo Lourenço foi hoje distinguido com o Prémio Pessoa que desde 1987 premeia figuras com um papel relevante no ano anterior nas áreas da cultura e da ciência.

O anúncio foi feito, como habitualmente, no Palácio de Seteais em Sintra por Francisco Pinto Balsemão, que preside ao júri também constituído por Fernando Faria de Oliveira (Vice-Presidente), António Barreto, Clara Ferreira Alves, Diogo Lucena, João Lobo Antunes, José Luís Porfírio, Maria de Sousa, Mário Soares, Miguel Veiga e Rui Magalhães Baião.

"Num momento crítico da História e da sociedade portuguesa, torna-se imperioso e urgente prestar reconhecimento ao exemplo de uma personalidade intelectual, cultural, ética e cívica que marcou o século XX português", escreveu o júri em comunicado sobre a escolha de Eduardo Lourenço, homenageando "a generosidade e a modéstia desta sabedoria, que tendo deixado uma marca universal nos Estudos Portugueses e nos Estudos Pessoanos, nunca desdenhou a heteredoxia nem as grandes questões do nosso tempo e da nossa identidade".


Continua AQUI

domingo, 4 de dezembro de 2011

Life Without Lights


http://lifewithoutlights.com/#

http://blog.lifewithoutlights.com/

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Novo Acordo Ortográfico

"A presente resolução do Conselho de Ministros determina a aplicação do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa no sistema educativo no ano lectivo de 2011 -2012 e, a partir de 1 de Janeiro de 2012, ao Governo e a todos os serviços, organismos e entidades na dependência do Governo, bem como à publicação do Diário da República."
 

AQUI

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Mario Benedetti (1920-2009)



Cálculo de probabilidades


Cada vez que un dueño de la tierra
proclama
para quitarme este patrimonio
tendrán que pasar
sobre mi cadáver
debería tener en cuenta
que a veces
pasan.

Mario Benedetti


Tempo Sem Tempo


Preciso tempo necessito esse tempo
que outros deixam abandonado
por que lhes sobra ou já não sabem
o que fazer com ele


tempo
em branco
em vermelho
em verde
até castanho-escuro
não me importa a cor
cândido tempo
que eu possa abrir
e fechar
como uma porta


tempo para olhar uma árvore um farol
para andar pelo fio do descanso
para pensar que bom hoje não é inverno
para morrer um pouco
e nascer em seguida
e para me dar conta
e para me dar corda
preciso tempo o necessário para
chafurdar umas horas na vida
e para investigar por que estou triste
e acostumar-me ao meu esqueleto antigo


tempo para esconder-me no canto de algum galo
e para reaparecer em um relincho
e para estar em dia
e para estar na noite
tempo sem recato e sem relógio


vale dizer preciso
ou seja necessito
digamos me faz falta
tempo sem tempo

Mario Benedetti


(agradeço a indicação a MM)

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Intervalo para a bica...

A BIZARRA HISTÓRIA DA INTERVENÇÃO NA LÍBIA


Por muito esforço que faça para compreender o que justificou a política da UE e dos EUA, em relação à Líbia não a consigo entender. A não ser pela universal explicação que os marxistas-leninistas reciclados e os altermundialistas costumam dar - o "imperialismo" queria o controlo do petróleo líbio, o mais barato de obter pela força nestes dias da crise - não se vê o que explica a guerra contra Khadafi. Parecendo-me por regra esta "explicação" pouco explicativa, chamemos-lhe assim, pelo menos tem a vantagem de fornecer uma interpretação dos eventos que, à míngua de qualquer outra, ganha algum peso.


O que aconteceu no último ano no mundo muçulmano, os eventos na Tunísia, Egipto, Bahrein, Iémen e Síria, só para citar os casos mais relevantes, está longe de ser esclarecido e muito menos de ser conhecido. Com a grande apetência para a ilusão exótica e a vontade de wishful thinking que têm os media ocidentais, divulgou-se uma interpretação dos eventos feita à medida mais das esperanças ocidentais do que das realidades locais. A "revolução democrática" personificada na Praça Tahrir foi saudada como sinal de que a "rua árabe", mais o Facebook, mais meia dúzia de blogues (alguns que hoje se sabe serem falsos como A Rapariga Lésbica de Damasco feita por um homem barbudo que vive na Escócia), tinham varrido as tentações fundamentalistas da Al-Qaeda e mostrado um amor à democracia onde menos se esperava que ele existisse.

Continua AQUI

O Operário Em Construção - Vinicius de Moraes


Voz de Mário Viegas

E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
- Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
- Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. V, vs. 5-8.

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão -
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
- "Convençam-no" do contrário -
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Culto dos Mortos




31 de Outubro - Festa de Samhain (ano novo Celta), noite do fogo novo e da inspiração
1 de Novembro - Dia de Todos os Santos
2 de Novembro - Dia de finados * Comemoração de Todos os fiéis defuntos

práticas e costumes aqui

terça-feira, 1 de novembro de 2011

SELVAJARIA CONSENTIDA E APOIADA PELA UE

A morte selvagem de Khadafi resultou de uma acção militar da NATO, assente no apoio aéreo e da actuação no terreno de combatentes tribais numa guerra civil apoiados por tropas estrangeiras do Qatar, para além de "especialistas" dos países da UE mais envolvidos, como os franceses e ingleses. Esta intervenção foi apoiada politicamente pela UE, "legitimava-se" numa resolução das Nações Unidas cujo objectivo limitado era a "protecção de civis" e cuja sistemática violação pelo envolvimento directo na guerra civil, teve os olhos fechados da opinião pública mundial. 

A execução de Khadafi, a violência filmada, a que se seguiu a exposição pública do corpo, mereceu pouco mais do que alguns reparos de circunstância, e o mesmo silêncio que tem sempre envolvido as violências e os crimes de guerra cometidos pelas tropas e milicianos dos "libertadores". Khadafi era um ditador assassino e fez tudo o que lhe fizeram, mas se em Khadafi é esperável esse comportamento, aliás esquecido e perdoado pelos mesmos países que o foram lá matar, é inaceitável uma Europa que está sempre a levantar a bandeira da abolição da pena de morte, e dos direitos humanos, ir lá agora dar dinheiro e apoiar e trazer para o concerto das "boas" nações os assassinos que ajudou a pôr no poder.
 
José Pacheco Pereira 

AQUI: http://abrupto.blogspot.com/2011/10/selvajaria-consentida-e-apoiada-pela-ue.html

domingo, 30 de outubro de 2011

Ode Triunfal - Álvaro de Campos

À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!

Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical —
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força —
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro.
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgíllo dentro das máquinas e das luzes eléctricas
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinqüenta,
Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
Fazendo-me um excesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.

Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!
Fraternidade com todas as dinâmicas!
Promíscua fúria de ser parte-agente
Do rodar férreo e cosmopolita
Dos comboios estrênuos.
Da faina transportadora-de-cargas dos navios.
Do giro lúbrico e lento dos guindastes,
Do tumulto disciplinado das fábricas,
E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão!
Horas européias, produtoras, entaladas
Entre maquinismos e afazeres úteis!
Grandes cidades paradas nos cafés,
Nos cafés — oásis de inutilidades ruidosas
Onde se cristalizam e se precipitam
Os rumores e os gestos do Útil
E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!
Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!
Novos entusiasmos de estatura do Momento!
Quilhas de chapas de ferro sorrindo encostados às docas,
Ou a seco, erguidas, nos planos-inclinados dos portos!
Atividade internacional, transatlântica, Canadian-Pacific!
Luzes e febris perdas de tempo nos bares, nos hotéis,
Nos Longchamps e nos Derbies e nos Ascots,
E Piccadillies e Avenues de l'Opéra que entram
Pela minh'alma dentro!

Hé-lá as ruas, hé-lá as praças, hé-lá-hô la foule!
Tudo o que passa, tudo o que pára às montras!
Comerciantes; vários; escrocs exageradamente bem-vestidos;
Membros evidentes de clubes aristocráticos;
Esquálidas figuras dúbias; chefes de família vagamente felizes
E paternais até na corrente de oiro que atravessa o colete
De algibeira a algibeira!
Tudo o que passa, tudo o que passa e nunca passa!
Presença demasiadamente acentuada das cocotes
Banalidade interessante (e quem sabe o quê por dentro?)
Das burguesinhas, mãe e filha geralmente
Que andam na rua com um fim qualquer;
A graça feminil e falsa dos pederastas que passam, lentos;
E toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra
E afinal tem alma lá dentro!

(Ah, como eu desejaria ser o souteneur disto tudo!)

A maravilhosa beleza das corrupções políticas,
Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos,
Agressões políticas nas ruas,
E de vez em quando o cometa dum regicídio
Que ilumina de Prodígio e Fanfarra os céus
Usuais e lúcidos da Civilização quotidiana!


Notícias desmentidas dos jornais,
Artigos políticos insinceramente sinceros,
Notícias passez à-la-caisse, grandes crimes —
Duas colunas deles passando para a segunda página!
O cheiro fresco a tinta de tipografia!
Os cartazes postos há pouco, molhados!
Vients-de-paraître amarelos como uma cinta branca!
Como eu vos amo a todos, a todos, a todos,
Como eu vos amo de todas as maneiras,
Com os olhos e com os ouvidos e com o olfato
E com o tacto (o que palpar-vos representa para mim!)
E com a inteligência como uma antena que fazeis vibrar!
Ah, como todos os meus sentidos têm cio de vós!

Adubos, debulhadoras a vapor, progressos da agricultura!
Química agrícola, e o comércio quase uma ciência!
Ó mostruários dos caixeiros-viajantes,
Dos caixeiros-viajantes, cavaleiros-andantes da Indústria,
Prolongamentos humanos das fábricas e dos calmos escritórios!

Ó fazendas nas montras! ó manequins! ó últimos figurinos!
Ó artigos inúteis que toda a gente quer comprar!
Olá grandes armazéns com várias seções!
Olá anúncios eléctricos que vêm e estão e desaparecem!
Olá tudo com que hoje se constrói, com que hoje se é diferente de ontem!
Eh, cimento armado, beton de cimento, novos processos!
Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos!
Couraças, canhões, metralhadoras, submarinos, aeroplanos!

Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera.
Amo-vos carnivoramente,
Pervertidamente e enroscando a minha vista
Em vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis,
Ó coisas todas modernas,
Ó minhas contemporâneas, forma atual e próxima
Do sistema imediato do Universo!
Nova Revelação metálica e dinâmica de Deus!

Ó fábricas, ó laboratórios, ó music-halls, ó Luna-Parks,
ó couraçados, ó pontes, ó docas flutuantes —
Na minha mente turbulenta e encandescida
Possuo-vos como a uma mulher bela,
Completamente vos possuo como a uma mulher bela que não se ama,
Que se encontra casualmente e se acha interessantíssima.

Eh-lá-hô fachadas das grandes lojas!
Eh-lá-hô elevadores dos grandes edifícios!
Eh-lá-hô recomposições ministeriais!
Parlamentos, políticas, relatores de orçamentos,
Orçamentos falsificados!
(Um orçamento é tão natural como uma árvore
E um parlamento tão belo como uma borboleta.)

Eh-lá o interesse por tudo na vida,
Porque tudo é a vida, desde os brilhantes nas montras
Até à noite ponte misteriosa entre os astros
E o mar antigo e solene, lavando as costas
E sendo misericordiosamente o mesmo
Que era quando Platão era realmente Platão
Na sua presença real e na sua carne com a alma dentro,
E falava com Aristóteles, que havia de não ser discípulo dele.

Eu podia morrer triturado por um motor
Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída.
Atirem-me para dentro das fornalhas!
Metam-me debaixo dos comboios!
Espanquem-me a bordo de navios!
Masoquismo através de maquinismos!
Sadismo de não sei quê moderno e eu e barulho!

Up-lá hô jockey que ganhaste o Derby,
Morder entre dentes o teu cap de duas cores!

(Ser tão alto que não pudesse entrar por nenhuma porta!
Ah, olhar é em mim uma perversão sexual!)

Eh-lá, eh-lá, eh-lá, catedrais!
Deixai-me partir a cabeça de encontro às vossas esquinas,
E ser levado da rua cheio de sangue
Sem ninguém saber quem eu sou!

Ó tramways, funiculares, metropolitanos,
Roçai-vos por mim até o espasmo!
Hilla! hilla! hilla-hô!
Dai-me gargalhadas em plena cara,
Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas,
Ó multidões quotidianas nem alegres nem tristes das ruas,
Rio multicolor anónimo e onde eu me posso banhar como quereria!
Ah, que vidas complexas, que coisas lá pelas casas de tudo isto!
Ah, saber-lhes as vidas a todos, as dificuldades de dinheiro,
As dissensões domésticas, os deboches que não se suspeitam,
Os pensamentos que cada um tem a sós consigo no seu quarto
E os gestos que faz quando ninguém pode ver!
Não saber tudo isto é ignorar tudo, ó raiva,
Ó raiva que como uma febre e um cio e uma fome
Me põe a magro o rosto e me agita às vezes as mãos
Em crispações absurdas em pleno meio das turbas
Nas ruas cheias de encontrões!

Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma,
Que emprega palavrões como palavras usuais,
Cujos filhos roubam às portas das mercearias
E cujas filhas aos oito anos - e eu acho isto belo e amo-o! —
Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escadas.
A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa
Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão.
Maravilhosa gente humana que vive como os cães,
Que está abaixo de todos os sistemas morais,
Para quem nenhuma religião foi feita,
Nenhuma arte criada,
Nenhuma política destinada para eles!
Como eu vos amo a todos, porque sois assim,
Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus,
Inatingíveis por todos os progressos,
Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida!

(Na nora do quintal da minha casa
O burro anda à roda, anda à roda,
E o mistério do mundo é do tamanho disto.
Limpa o suor com o braço, trabalhador descontente.
A luz do sol abafa o silêncio das esferas
E havemos todos de morrer, ó pinheirais sombrios ao crepúsculo,
Pinheirais onde a minha infância era outra coisa
Do que eu sou hoje... )

Mas, ah outra vez a raiva mecânica constante!
Outra vez a obsessão movimentada dos ônibus.
E outra vez a fúria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios
De todas as partes do mundo,
De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios,
Que a estas horas estão levantando ferro ou afastando-se das docas.
Ó ferro, ó aço, ó alumínio, ó chapas de ferro ondulado!
Ó cais, ó portos, ó comboios, ó guindastes, ó rebocadores!

Eh-lá grandes desastres de comboios!
Eh-lá desabamentos de galerias de minas!
Eh-lá naufrágios deliciosos dos grandes transatlânticos!
Eh-lá-hô revoluções aqui, ali, acolá,
Alterações de constituições, guerras, tratados, invasões,
Ruído, injustiças, violências, e talvez para breve o fim,
A grande invasão dos bárbaros amarelos pela Europa,
E outro Sol no novo Horizonte!

Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto
Ao fúlgido e rubro ruído contemporâneo,
Ao ruído cruel e delicioso da civilização de hoje?
Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento,
O Momento de tronco nu e quente como um fogueiro,
O Momento estridentemente ruidoso e mecânico,
O Momento dinâmico passagem de todas as bacantes
Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais.

Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar,
Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos,
Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar,
Engenhos, brocas, máquinas rotativas!

Eia! eia! eia!
Eia electricidade, nervos doentes da Matéria!
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do Inconsciente!
Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez!
Eia todo o passado dentro do presente!
Eia todo o futuro já dentro de nós! eia!
Eia! eia! eia!
Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita!
Eia! eia! eia! eia-hô-ô-ô!
Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me.
Engatam-me em todos os comboios.
Içam-me em todos os cais.
Giro dentro das hélices de todos os navios.
Eia! eia-hô! eia!
Eia! sou o calor mecânico e a electricidade!

Eia! e os rails e as casas de máquinas e a Europa!
Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, máquinas a trabalhar, eia!

Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá!


Hup-lá, hup-lá, hup-lá-hô, hup-lá!
Hé-la! He-hô! Ho-o-o-o-o!
Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!

Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!


(agradecendo a indicação à Filipa Pedroso)


Álvaro de Campos

ÉTICA, TECNOLOGIA E INFORMAÇÃO: O MITO DO PROGRESSO[1]


GILBERTO DUPAS[2]



No alvorecer do século XXI, o paradoxo está em toda parte. A capacidade de produzir mais e melhor não cessa de crescer, mas traz também consigo exclusão, concentração de renda e subdesenvolvimento e graves danos ambientais. Como equilibrar os benefícios potenciais da genética, da robótica e da nanotecnologia contra o perigo de desencadear um desastre que comprometa irremediavelmente nossa espécie? As conseqüências negativas do progresso, transformado em discurso hegemônico, acumulam um passivo crescente de riscos graves que podem levar de roldão o imenso esforço de séculos da aventura humana para estruturar um futuro viável e mais justo para as gerações futuras.

Seria uma insensatez negar os benefícios que a vertiginosa evolução das tecnologias propiciou ao ser humano no deslocar-se mais rápido, viver mais tempo, comunicar-se instantaneamente, e outras proezas que tais. Mas trata-se aqui de analisar a quem dominantemente esse avanço serve e quais os riscos e custos de natureza social, ambiental e de sobrevivência da espécie que ele está provocando; e que catástrofes futuras ele pode ocasionar. Mas, principalmente, é preciso determinar quem escolhe a direção desse progresso e com que objetivos.

O que definitivamente consolidou a idéia contemporânea de progresso foi a revolução provocada por Darwin com sua Origem das Espécies, publicada após muita hesitação em 1859.  A idéia de progresso também permeou a quase totalidade da obra de Hegel, estruturada sobre a dialética. Finalmente, no final do século XIX, Karl Marx também acreditou profundamente no progresso histórico e inexorável da humanidade para uma sociedade sem classes.

Mas após a queda do socialismo real, foi um capitalismo global triunfante, empunhando o desenvolvimento científico e técnico e seus avanços formidáveis, quem se apossou integralmente do conceito de progresso. Essa tentativa de resgate do sentido do progresso perdido entre os destroços das duas guerras mundiais e de suas trágicas conseqüências, durou pouco. O sinal de alarme mais estridente parece ter sido os ataques terroristas às torres de Nova York. 




[1] Este ensaio baseia-se fundamentalmente no último livro do autor “O Mito do Progresso” (Editora Unesp).
[2]Gilberto Dupas é  presidente do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais (IEEI), Coordenador-Geral do Gacint-USP, professor-visitante da Universidade de Paris II e autor de vários livros, entre os quais, Economia Global e Exclusão Social (Paz e Terra); Ética e Poder na Sociedade da Informação (UNESP); Hegemonia, Estado e Governabilidade (Senac); Tensões Contemporâneas entre o Público e o Privado (Paz e Terra); Atores e Poderes na Nova Ordem Global (Unesp) e O Mito do Progresso (Unesp).

sábado, 29 de outubro de 2011

Vannevar Bush - MEMEX

A Cultura no Espaço Virtual - Cibercultura

O que há de Ciber na Cultura? 

Jorge Martins Rosa


Um campo em busca de legitimação

Como já ocorreu com outras catchwords, de que são exemplo os debates intelectuais de décadas anteriores em torno de expressões derivadas do adjectivo «pós-moderno», o mesmo começa a ocorrer hoje em dia com a ideia de «cibercultura». E se é já praticamente absurdo negar a sua existência, bastando para tal acenar com factos como a explosão do uso da Internet, falta-nos ainda uma clara e fundamentada definição daquilo que esta subsume. Um pouco como o conhecido ponto de partida de Sto. Agostinho quando procurava discorrer sobre o tempo, todos parecem reconhecê-lo e mesmo identificá-lo mas muito poucos são capazes de dizer o que é. Da forma o mais despretensiosa possível, arrisca-se aqui uma tentativa de definição do que traz de novo a cibercultura à cultura, ou, o que é quase afirmar o mesmo, o que há na cultura contemporânea (ou parte desta) que obrigue a apender-lhe o prefixo «ciber-».
Roland Barthes, perante a ingrata tarefa de definir o que é a literatura, chegou certa vez à irrefutável – apesar de falaciosa, por cair em petição de princípio – afirmação de que é literatura aquilo que se ensina como sendo literatura. Sendo Barthes professor de literatura, e reforçando a afirmação, a literatura para ele era aquilo que ele ensinava como sendo literatura. O primeiro passo que daremos na tentativa de definir a cibercultura será em tudo semelhante, com a diferença mínima de que iremos recorrer à prática de ensino de outros. Mais concretamente, atente-se naquilo que são as versões mais recentes (do primeiro semestre lectivo de 2002-2003) dos programas lectivos de dois dos nomes mais reconhecidos neste novíssimo campo académico: Steven Shaviro e Mark Poster1.
(actualização de 14 Novembro 2009 14:13 )

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